O longo adeus da Europa


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Marco Polli

Não há na terra uma só coisa que o esquecimento não apague ou que a memória não altere e [...] ninguém sabe em que imagens o traduzirá o futuro.
Jorge Luis Borges, “Mutações” [1]

É difícil, aqui na Mittelwerke, viver no presente por muito tempo. A nostalgia que sentimos não é nossa, mas é poderosa.
Thomas Pynchon, O Arco-íris da gravidade [2]

I

Em 1992, o escritor alemão W. G. Sebald passou uma temporada pelo sudeste da Inglaterra. Dos locais, cemitérios, construções antigas e personagens da região, ele foi capaz de puxar a trilha de uma rede de histórias e meditações sobre o passado europeu, resultando em Os anéis de Saturno [3]. Narrado em primeira em pessoa e contando com algumas imagens da região e de documentos de época, o volume é de difícil classificação a princípio. Misturam-se nele relato pessoal, ensaio, narrativa histórica, porém, o tom é definitivamente literário, de uma literatura melancólica e evocativa. Em certa passagem, o narrador está em frente ao mar onde houve uma histórica batalha entre Holanda e Inglaterra em 1672:

Naqueles tempos deve ter havido poucas cidades no mundo com tantos habitantes quanto o número de pessoas mortas num combate desses. O sofrimento e toda a obra da destruição superam em muito nossa capacidade de imaginação, assim como é impensável o enorme empenho de trabalho — desde abater e preparar as árvores, obter e tratar o bronze, trabalhar o ferro até tecer e preparar as velas – necessário para construir e equipar esses navios em sua maioria destinados à destruição.

Em suas dez partes relativamente autônomas, Os anéis de Saturno exibe detalhes sobre assuntos diversos, como, por exemplo, a vida de Edward Fitzgerald (escritor e tradutor para o inglês dos Rubaiyat) ou Joseph Conrad (cuja experiência em navegação comercial e na colonização do Congo Belga ajudou-o a criar o clássico O coração das trevas), tanto quanto sobre aspectos técnicos do cultivo da seda e pesca de arenques. Entretanto, essa minúcia — que em momentos pode parecer excessiva ao leitor — não vem com objetivo de tentar recriar a experiência histórica, ela serve para construir uma narração elegíaca, uma prosa sobre ecos. Assim, a batalha naval é caracterizada como uma peça dramática nebulosa, encenada muito tempo atrás. Antes da capacidade de imaginar exatamente o que aconteceu, é priorizada a evocação de histórias e de pessoas dentro de um tom bastante pessoal. Não é por acaso que o texto de Sebald é descrito por vezes como uma prosa onírica: a história e o continente se tornam uma paisagem pessoal.

II

A imagem sobre a Europa Ocidental foi se colocando como a do velho continente, terra de cultura e edificações antigas, que foram ameaçadas não por transformações ativas mas por duas guerras mundiais. Embora compreensível quando se tem mente o dinamismo de países como EUA e, mais tarde no séc. XX, Japão ou Coréia, essa visão não faz justiça às mudanças radicais que tiveram origem nos países europeus e que ainda continuam a ter conseqüências. Por exemplo, apenas tendo em vista os séculos em que se firmou uma visão religiosa do mundo — inspiradora de igrejas monumentais, de obras de arte e de longas guerras — é que se pode ter noção do impacto da revolução científica, que fez do universo e do corpo humano objetos de observação sistemática e racional. Comentando sobre a pintura A lição de anatomia do Dr. Tulp (1632) — que retrata uma dissecação pública —, o narrador de Os anéis de Saturno chama a atenção para a forma com que a mão esquerda do cadáver está mal representada. Ele não acredita que faltasse a Rembrant a capacidade de pintá-la com realismo e acha mais provável que houve simplesmente uma recusa da representação anatômica exata, como uma reação ao poder dos médicos em torno do seu objeto de análise.

Não são deixadas de lado as relações da Europa com outros países. Fala-se, por exemplo, sobre as Guerras do Ópio e a conseqüente destruição de mais de duzentos palácios chineses. A colonização particularmente violenta do Congo Belga é tratada com eloqüência. Não era apenas a Europa transformando outras regiões, mas também sendo transformada por essa ação. Sobre a passagem de Joseph em Bruxelas após um período no Congo, lê-se:

[Conrad] agora sente a capital do reino da Bélgica, com seus edifícios cada vez mais bombásticos, como um monumento fúnebre que se ergue sobre uma hecatombe de corpos negros, e os transeuntes nas ruas lhe parecem carregar todos dentro de si o escuro mistério congolês.

A longa e conturbada história européia, a sua dimensão épica e virulenta, é tratada por Sebald como uma sombra por demais pesada. Um das figuras recorrentes em Os anéis de Saturno é Thomas Browne, intelectual inglês do século XVII, que tratou de assuntos variados como estudos bíblicos, medicina, literatura e esoterismo. Logo na primeira parte, lê-se:

[P]ara Thomas Browne nada é permanente. Sobre cada nova forma já reina a sombra da destruição. A história de cada ser individual, de cada comunidade e de todo mundo não transcorre num arco que se ateia cada vez mais amplo e mais belo, mas num trilho que, tendo atingido o meridiano, desce para a escuridão. (…) Até o próprio tempo envelhece.

Assim, é dada atenção a outros episódios violentos como os bombardeios aéreos na Segunda Guerra Mundial ou o massacre de sérvios cometido na mesma época pelos croatas com o apoio da Alemanha, momentos em que o impulso coletivo para a morte prevalece. De todos esses conflitos e dramas, parece surgir um desgaste que não é mais reversível.

III

Sebald escreve como quem estivesse em um sonho melancólico mas incrivelmente rico e diverso — e tal como nos sonhos lúcidos, há uma sensação constante de fragilidade, a consciência de que tudo o que se está vendo pode desaparecer repentinamente. Não é preciso o leitor concordar com a visão criada por Sebald— freqüentemente vazada por um romantismo decadentista — para poder admirá-la. Como um grande escritor, ele faz da sua abordagem peculiar uma experiência de leitura sedutora, capaz de ser partilhada ao menos por alguns instantes.

Com 57 anos, Sebald morreu em 2001 em um acidente de carro. Muitos lamentaram a perda precoce de alguém que estava sendo identificado como um dos mais importantes e singulares autores do seu tempo. A leitura de Os anéis de Saturno apenas ajuda a confirmar essa opinião.

Referências

[1] O fazedor, trad. Josely Vianna Baptista, Globo
[2] Trad. Paulo Henriques Brito, Companhia das Letras
[3] Trad. de Lya Luft, Record

Marco Polli. Nascido em 1973, criado no interior de São Paulo. Formou-se em Engenharia Química, mas ainda persegue fielmente a prosa literária. Mantém uma página sobre cinema e um blog.

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