Por onde andará Isaías Pessotti?


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Lucas Murtinho

A pesquisa na vida real pode ser excitante, mas não tem o charme da ficção. Em vez de ir com meus amigos de instituto de pesquisa a uma vila esquecida do Vêneto, parando pelo caminho para almoçar um risotto giallo ai fruti di mare cuja mera descrição, vinda da boca do dono do restaurante, é tão precisa que sozinha sugere o gosto à língua; em vez de encontrar freis joviais, risonhos e surpresos pelo interesse do nosso grupo pelo antigo mosteiro por onde passou o obscuro personagem que estamos aos poucos desvendando; em vez de me apaixonar perdidamente por uma colega de olhos quentes e uma sensualidade indisfarçada pela sua timidez; em vez disso tudo, não saio da frente do computador e digito “isaias pessotti” no Google para ver se descubro algo mais sobre o recente silêncio de um dos melhores romancistas brasileiros dos últimos tempos.

Minha investigação não me leva muito além do que está na pequena notícia biográfica incluída em A lua da verdade, o último romance de Pessotti, lançado em 1997. Pessotti é um respeitado psicólogo e estudioso da história da psicologia, e já escreveu diversos livros nesses domínios — os mais recentes, uma trilogia sobre a evolução do conceito de loucura, foram publicados pela 34, a mesma editora que lançou seus três romances: além de A lua da verdade, O manuscrito de Mediavilla (1995) e Aqueles cães malditos de Arquelau (1993). O cenário italiano dos seus dois primeiros livros é certamente fruto dos períodos que passou estudando e lecionando em Milão durante a década de 1960. O fiapo de entrevista que encontro republicado num blog sugere traços que, embora não estejam na minibiografia, são facilmente dedutíveis a partir dos seus romances: a crença arraigada na importância do conhecimento e a vontade modesta mas teimosa de tornar o mundo mais belo, mais gentil, mais culto. Uma vontade que Pessotti se preocupa por não ver na nova geração.

Confirmo, portanto, o que mais ou menos já sabia sobre o autor. Mas não desvendo o enigma do seu silêncio. Espero que ele esteja bem e que a literatura ainda esteja nos seus planos, porque seria uma pena se sua obra literária se resumisse aos três romances citados.

Aqueles cães malditos de Arquelau é, com facilidade, seu melhor livro. Nele, Pessotti narra o trabalho de investigação de um grupo de pesquisadores italianos interessados em identificar o autor de uma apaixonada defesa de Eurípides, escrita um punhado de séculos atrás. O narrador é também o tradutor do texto; à labuta detetivesca se misturam trechos da sua tradução, e um dos grandes feitos de Pessotti é não decepcionar o leitor no tocante à genialidade do texto traduzido: a fineza de raciocínio e a elegância de estilo que encantaram os pesquisadores estão lá e encantam também o leitor. É uma aposta arriscada a de cobrir de elogios uma parte do seu próprio romance, mas Pessotti vence-a com facilidade. Além disso, a erudição que transpira do romance nunca é empolada ou arrogante: ela serve diretamente ao desvendamento do mistério e é apresentada com uma empolgação irresistível. Um romance policial com cérebro, gula e paixão.

O grande defeito de O manuscrito de Mediavilla é se parecer demais com Aqueles cães malditos de Arquelau, mas reclamar disso é como reclamar de um restaurante por fazer o mesmo prato delicioso durante uma estação inteira: o gosto de déjà-vu não estraga o prazer de acompanhar a pesquisa de um novo grupo de pesquisadores milaneses cujo trabalho os leva a estudar atentamente os estertores finais da famosa Ordem dos Templários. No começo da leitura, lamentei apenas não reencontrar os personagens de Aqueles cães…, mas o novo grupo de sábios pândegos rapidamente me conquistou. E o mistério, embora menos azeitado do que no primeiro livro, também prende com facilidade nossa atenção.

Há mais do mesmo em A lua da verdade, e a repetição poderia, dessa vez, ter se tornado entediante. Mas neste romance — e é isso o que me faz desejar que ele publique outro — Pessotti acrescenta um novo tema às suas preocupações literárias: as relações entre aparência e verdade, realidade e ficção. A costura dessa novidade aos assuntos já abordados nos dois romances anteriores — a importância do conhecimento e a luta contra o obscurantismo, os complicados sinais que homens e mulheres trocam durante o lento processo de sedução — não é inteiramente bem sucedida e, por isso mesmo, sugere que o autor poderia escrever um futuro romance, melhor até do que Aqueles cães malditos de Arquelau, em que seu horizonte de idéias se expandiria sem atrapalhar a estrutura da narrativa. Estrutura, é bom deixar claro, que continua funcionando em A lua da verdade, ainda que um pouco mais vacilante. Outra mudança é que o grupo de pesquisadores agora se forma durante o romance: os diversos personagens, cada um com conhecimentos específicos importantes para solucionar o desaparecimento de uma herege durante seu julgamento em Évora, se encontram de forma deliciosamente improvável num cruzeiro que parte do Brasil para a Europa.

No conjunto, a obra de Pessotti apresenta qualidades que fazem falta na cena literária brasileira: uma preocupação grande e apaixonada com o conteúdo, balizado por uma pesquisa extensa mas em momento algum excessiva, sempre utilizada a serviço da trama; um estilo elegantemente econômico, que reconhece a desnecessidade de mesmerizar o leitor com uma exorbitante taxa de metáforas brilhantes por página; uma fuga do umbiguismo e da personalização, com a apresentação de problemas externos aos personagens que nos ajudam a entender melhor sua vida interna. Lições de simplicidade, ambição, pesquisa e trabalho: a literatura brasileira contemporânea é mais rica graças a Isaías Pessotti. Espero que ele queira e possa enriquecê-la ainda mais, mas ao leitor que não leu seus romances fica a dica: Aqueles cães malditos de Arquelau, O manuscrito de Mediavilla e A lua da verdade mostram que não nos devemos contentar com pouco, porque a literatura brasileira contemporânea pode — e deve — nos oferecer muito.

Lucas Murtinho é o organizador da Copa de Literatura Brasileira e assistente editorial da Dantes Editora.

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