Amar este livro como dentro dele se ama
Gonçalo Mira
Descobri, não há muito tempo, que só há uma forma de falar de coisas que amamos. Faz-se de olhos brilhantes de entusiasmo, perdidos numa janela em busca de outro tempo, outro lugar, de sorriso infantil colado no rosto, rasgado de orelha a orelha e de dentes muito brancos. E sim, quando falamos de coisas que amamos, quando estamos tão intensamente apaixonados, não temos tempo de pesar substantivos ou adjectivos com medo de pisar lugares comuns. Percorremos o caminho mais depressa, na ânsia de agarrar o objecto, na ânsia de o mostrar ao mundo, de exigir que o contemplem, que o amem, que o queiram — mas que nunca o alcancem mesmo. E podemos amar uma pessoa, uma canção, três minutos de vida, podemos amar um livro.
Aracne [1] é um pequeno e discreto livro de poemas de António Franco Alexandre — poeta português e professor de Filosofia, nascido em 1944 — que consegue, com apenas vinte poemas, ser maior do que a vida. E não concebo escrever sobre este livro de outro modo que não de olhos brilhantes e janela aberta para outro mundo. E a angústia de lhe fazer jus é tanta que sufoco ao escrever o que escrevo. Paro. Volto atrás. Apago tudo. Recomeço. Então percebo: não lhe posso fazer jus. Nada do que escreva fará jus a este livro. Só lhe posso declarar o meu amor e esperar que outros o amem — não tanto quanto eu, não tanto que mo roubem. Porque Aracne é meu.
Podíamos falar, a propósito de Aracne, de mitologia grega, das Metamorfoses de Ovídio, procurar relações, referências, estabelecer paralelismos, etc. Tudo isso se poderia fazer, mas não é isso que me interessa neste texto. Aracne, o livro de António Franco Alexandre, fascina-me por si só, enquanto unidade com princípio, meio e fim; enquanto um todo, como poucos livros de poemas o são. É certo que a poesia de Franco Alexandre se faz, frequentemente, de diálogo com outros poetas, outras línguas, outras literaturas. Contudo, aqui o que me interesse é o diálogo dentro do próprio livro. O diálogo de poema com poema, de sujeito com sujeito.
O título significa, tão somente, aranha. O livro está cheio de insectos. Não só de aranhas, mas de muitos outros: baratas, escaravelhos, lagartas, formigas, mosquitos, abelhas, besouros. E todos estes bichos são convocados para falar de amor. Estranho, sim, mas, parafraseando o título português do filme de Sofia Coppola, Lost in translation: o amor é um lugar estranho. Tão estranho, que é possível escrever um livro de poemas em que insectos amam humanos, desejam humanos e, para tal, desejam ser humanos.
Os vinte poemas são vinte declarações, ou apenas uma muito longa, de amor e de desejo profundos, atravessadas por uma melancolia muito carregada e um sentimento de impotência devastador. É de amor que se trata, já o disse, mas é de um amor impossível, inalcançável. Como tal, profundamente doloroso.
Formoso amigo meu, podes cantar à lua
e amar outros mais lestos do que eu,
roer um osso, admirar as estrelas,
seres sábio e humano, além de belo.
Estes insectos desejam o humano. Ficam de tal forma fascinados com a sua beleza, que estão dispostos a transformarem-se em homens para que os homens os amem, os queiram e lhes consigam tocar sem repulsa. Desejo é uma palavra fulcral para falar desta obra. Amor e desejo são frequentemente, isto para não usar o assertivo sempre, vistos de mãos dadas e em Aracne a relação é por demais evidente. Ao oitavo poema deste livro temos a mais bela evocação desse desejo, naqueles que são, também, dos versos mais bonitos que podemos ler na obra.
É triste ser vampiro, mas
está-me na natureza o apetite;
vou-me esquecer agora do limite
que me impus noutra hora mais discreta,
dar-me todo à fome, e devorar-te
sem teia, nem fio, nem arte.
Porém, os insectos não são tão cegos neste amor quanto se poderia julgar. Antes pelo contrário: são conscientes da sua sabedoria e das vantagens que possuem sobre os humanos. Os humanos envelhecem, os seus corpos perdem brilho, perdem encanto. E na morte são tão feios. Os insectos têm a sabedoria toda, sabem tudo do tempo, da vida, da morte. Os insectos permanecem belos até na morte. E, no entanto, conscientes de tudo isto, o amor fala mais alto e estão dispostos a abdicar de tudo pelo amor do homem. Por uma mão dada sem repulsa, por olhar sem nojo. É por esta razão que Aracne é um livro que se ama, porque fala de um amor tão intenso e tão puro, que por ele o amante está disposto a abdicar de tudo o que possui. Não é fácil descrevê-lo, não é fácil fazer ver quem não leu: mas Aracne é das mais belas declarações de amor que se podem ler.
Os últimos versos do vigésimo e último poema fazem uma súmula desta ideia de amor e são, sem dúvida, a melhor forma de acabar o livro.
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.
Aracne é um livro belíssimo. Não é só a história de amor que conta (tanto quanto um livro como este pode, de facto, contar uma história), é também a forma como a conta. A escrita de António Franco Alexandre é tão bonita, que só pode ter sido trabalhada com a minúcia e a paciência de uma aranha que tece a mais bela teia. A poesia faz-se, antes de tudo, com palavras, e aqui essa matéria-prima é usada com rara mestria. Cada palavra tem o peso certo e uma posição harmoniosa no poema. O livro lê-se como uma fábula de tom encantatório, uma longa e triste e melancólica e (por isso) bela canção de amor. Talvez os excertos apresentados levantem um pouco o pano e permitam perceber, ainda que muito levemente, a profunda musicalidade inerente a esta obra. A rima aparece quando tem de aparecer, nunca aparece só porque sim. Nunca é inserida sem motivo. Não se troca uma palavra por outra só para rimar. Tudo, neste livro, parece estar no sítio certo.
Chega-se ao fim e só uma coisa faz sentido: regressar. Entrar de novo no casulo, explorar cada recanto da teia. Aprender, dos insectos, o amor. Amar este livro como dentro dele se ama. E agora não sei se prove o veneno da aranha e me perca para sempre, se me deleite com o mel da abelha e morra de luxúria.
Referência
[1] Assírio & Alvim (Portugal), 2004
Gonçalo Mira nasceu em Setúbal, em 1986. Frequenta um curso de Literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e faz crítica literária há três anos. É o fundador e editor da Orgia Literária e colaborador da revista DIF e da webzine Rua de baixo.




