A sombra do vento


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Eduarda Sousa

Há que distinguir: A sombra do vento [1], de Carlos Ruiz Zafón, não é um bestseller mas um top de venda. Sim, quem explica a diferença é Alexandre O’Neill:

O bestseller é um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de ‘marketing’ editorial e livreiro”, enquanto os tops de venda são “excelente literatura que, por razões pontuais e, muitas vezes extrínsecas à sua própria feitura, conheceram grandes êxitos de venda. [2]

A sombra do vento tem somado tops de vendas por todo mundo mas, ao contrário do bestseller, que rapidamente se esquece e perde no tempo, este livro veio para conquistar o seu espaço no corpo de vários leitores, especialmente dos bibliófilos. O penúltimo livro de Zafón é um livro sobre livros, mas não só: romance, policial, aventura, terror e muitos outros elementos estão lá.

Tudo começa em 1945, numa Barcelona modernista do pós-guerra civil espanhola. Daniel Sempere é uma criança órfã de mãe que um dia é levado pelo seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecidos — um lugar secreto que guarda todos os livros que foram condenados ao esquecimento, permitindo que continuem a sobreviver. De acordo com a tradição, Daniel pode salvar uma alma e acaba por escolher A sombra do vento, de Julián Carax, um escritor obscuro. O livro rouba-lhe apaixonadamente a noite e Daniel começa a procurar outros do autor. Mas a tarefa revela-se difícil: o miúdo descobre que um indivíduo de rosto desfigurado, com o nome de uma das personagens de um livro de Carax, andou de loja em loja à procura de todos os livros do escritor e, à medida que os ia descobrindo, queimava-os. As obras de Julián Carax tornaram-se verdadeiras raridades e um alfarrabista chega a oferecer a Daniel uma quantia considerável de dinheiro pela Sombra do vento, mas o protagonista recusa todas as ofertas. À medida que Daniel vai crescendo, as investigações aprofundam-se e ele começa a reconstruir a história de Julián Carax, que acabará por se confundir com a sua. Pelo meio não poderia faltar o amor: Daniel apaixona-se primeiro por Clara, uma jovem cega, e mais tarde pela irmã do seu melhor amigo, Bea. O desfecho é surpreendente.

A sombra do vento nasce do casamento entre Gabriel García Márquez, Umberto Eco e Jorge Luis Borges. Há tramas dentro de tramas, labirintos dentro de labirintos, personagens e histórias por resolver. E a excelência de Zafón está na forma como conduz o leitor, cada vez mais perdido, e esfomeado pelo desenlace laboriosamente urdido. Não há tempos mortos, tudo se acelera vertiginosamente. E estamos a falar, na edição de bolso da Phoenix, de aproximadamente 500 páginas. É um crescendo de suspense e agitação, sem qualquer aborrecimento pelo meio. O autor não faz render o peixe, descreve apenas o essencial, e até se fica com pena que o peixe não sobreviva por mais tempo.

Mas nem tudo são rosas. A sombra do vento peca principalmente nas personagens. A caracterização é fraca e Záfon pinta um quadro excessivamente idílico: as prostitutas são meigas e doces; o chapeleiro é mau; um vagabundo, resgatado da rua, torna-se um gentleman trabalhador e exemplar. Daniel apaixona-se muito rapidamente e parece que, apesar da passagem dos anos, não cresce.

O leitor que se atrever por estas sombras de vento deve ficar precavido: não esteja a ler mais nenhum livro porque este irá absorvê-lo por completo e não descansará enquanto não o acabar. Maldito. E depois de acabar, ira questionar-se: “Existirá vida, ou livros, depois de A sombra do vento?”.

Os dois primeiros capítulos do livro estão disponíveis em espanhol aqui. Em Portugal [3], a versão traduzida custa aproximadamente 22 euros, enquanto que a edição de bolso da Phoenix fica por 12 euros. Perante diferença tão abismal, o leitor que domine o inglês optará certamente pela segunda opção.

***

Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Em 1993, obteve o Prémio Edebé com o seu primeiro romance O príncipe da névoa. Desde então, publicou mais quatro romances, transformando-se numa das maiores revelações literárias com A sombra do vento — finalista do Prémio de Romance Fernando Lara 2001 e do Prémio Llibreter 2002, e eleito o Melhor Livro de 2002 pelos leitores de La Vanguardia. El juego del Ángel é o mais recente livro do escritor espanhol.

Referências

[1] Dom Quixote (Portugal), 2004
[2] Uma coisa em forma de assim, Assírio & Alvim (Portugal), 2004
[3] No Brasil, o livro foi lançado pela Editora Objetiva em 2007.

Nota

Este texto é uma versão ampliada do que foi publicado no jornal ComUM da Universidade do Minho, em Portugal.

Eduarda Sousa nasceu em Vila Verde, distrito de Braga, em 1984. Actualmente é estudante de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. Participa ainda no jornal ComUM, no portal cultural Rascunho.net e mantém o blog pessoal o absurdo. Nos tempos livres, gosta de passear, ler, escrever e navegar na internet.

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1 comentário  


  1. [...] 17, 2008 por Eduarda Sousa A edição #9 da revista Malagueta já saiu. Contribuo com uma pequena crítica que já tinha sido publicada parcialmente na versão impressa do ComUM. Fica o agradecimento pelo [...]



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