Um deus passeando pela brisa da tarde
Luís Carlos Silva
Mário de Carvalho, nascido a 25 de Setembro de 1944, é um dos mais importantes ficcionistas portugueses da actualidade. De nome completo Mário Costa Martins de Carvalho, é advogado de formação e as suas ligações políticas nos anos sessenta valeram-lhe a prisão e posterior exílio, em França e na Suécia, nos subsequentes anos setenta. Regressou a Portugal após o 25 de Abril de 74 e começou a actividade literária em 1981, com uma antologia de nome Mar. No ano seguinte, publicou a sua primeira obra, Contos da Sétima Esfera e, desde então, tem publicado com regularidade assinalável.
O estilo de escrita de Mário de Carvalho, apesar de não poder ser inserido em nenhum registo ou linha predefinidos, uma vez que explora os mais diversos géneros, temas e tempos históricos, revela um impressionante domínio da língua portuguesa. Facilmente se perscrutam as influências de um Camilo ou de um Eça. Mas a frescura e a modernidade das suas obras fazem com que estas sejam refrescantes e, em certa medida, inovadoras.
A sua obra como dramaturgo é também assinalável e é um dos autores mais profícuos da última década. Várias obras suas foram já adaptadas ao Teatro e é autor de diversos guiões televisivos e tem também concluído um guião para cinema.
Das várias obras do autor, aquela que nos propusemos recensear foi Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. Um livro de 1994, mas que ainda continua a estar presente nas estantes das livrarias. Para além disso, continua a ser lido e apreciado, e é mesmo leitura obrigatória em alguns cursos do secundário, nas escolas portuguesas.
Claro está que Mário de Carvalho iria desmentir a ideia de que esta obra será meramente uma cripto-crítica à classe política actual (ou a de qualquer tempo) — apesar de já termos visto resenhas a este livro que o indicam aberta e exclusivamente como tal. No entanto, para nós, esta obra é muito mais do isso e dizer que se trata simplesmente de um ataque à classe política estará a reduzir uma obra que merece muito mais atenção.
Assim, o que nos fica deste livro é a imagem de um romano com consciência, mas uma consciência de tal forma desenvolvida que lhe arranjou grandes e graves problemas, levando mesmo ao afastamento do seu cargo de duúnviro, de autoridade máxima da pequena povoação romana de Tarcisis — situada, adivinhamos nós, perto do que é hoje o Alandroal, uma povoação do Baixo Alentejo, pela proximidade do santuário de Endovélico, a que o autor faz referência.
E, de facto, ao lermos o livro, não podemos deixar de pensar nos políticos de hoje que, por maiores e mais elevados ideais que tenham, têm de abdicar destes e deixar-se levar pela engrenagem de um sistema pútrido ou, pura e simplesmente, se afastam ou são afastados. E foi isto que acabou por acontecer a Lúcio Valério. Acabou por ser convidado a abdicar do seu cargo, pois estava realmente muito longe dos modelos romanos, nos quais não se revia. Não apreciava os jogos, os deuses nada lhe diziam, procurava justiça nos seus julgamentos em vez de fazer aquilo que sabia que iria agradar ao povo, entre outros “defeitos de carácter” que os seus pares não lhe souberam perdoar.
É o resumo dos acontecimentos que levaram Lúcio ao cargo de duúnviro, até ao seu afastamento, que Mário de Carvalho nos conta com a mestria de um escritor de primeiríssima água.
Pelo meio, ficamos a conhecer uma seita que se identifica pelo símbolo do peixe, cujos ritos são por todos temidos e odiados, e cuja existência, naturalmente, muitos problemas levantou ao duúnviro. A invasão dos mouros é ainda outro problema a que Lúcio Valério tem de fazer face, juntando-se a oposição levada a cabo pelo padeiro, filho de um liberto, com a ambição de chegar a edil da cidade; qualquer decisão que Lúcio tomasse iria encontrar um obstáculo. E é esta angústia, este querer fazer sempre o que a sua consciência lhe dita, esta pressão constante que também nós sentimos no desenrolar da história de Lúcio Valério que, para complicar ainda mais, se apaixona por Iunia Cantaber, uma das percursoras do culto cristão, cujo fanatismo é extremo.
Cabe acrescentar ainda que, não sendo um romance histórico — como o autor nos diz: “Tarcisis nunca existiu” —, as descrições dos espaços, das roupas, das regras e preceitos romanos são de extrema exactidão, o que, aliado a uma escrita no limiar do sublime, nos transporta para atmosferas e ambiências absolutamente extraordinárias.
Pelas pesquisas que pudemos efectuar, não encontrámos uma edição brasileira desta obra. Do autor, existe em edição brasileira, pela Companhia das Letras, a obra Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto.
Luís Carlos Silva nasceu em Lisboa em 1975. Autodidacta em várias disciplinas, como a História — de Portugal em particular e do Mundo em geral —, Filosofia Esotérica, Religião e Espiritualidade, entre outras. Participou (e participa) em projectos de associativismo, dos quais resultou um periódico, de que foi responsável durante cinco anos: o boletim Lusophia. Escreve regularmente há nove anos, sendo presentemente responsável pelo blogue literário Arte de Ler e também pelo blogue pessoal Azul Profundo. Autor do livro de crónicas Reflexos do Espírito e da Matéria, editado pela Editora Zéfiro. Na mesma editora, participou na obra O Perdão dos Templários.




