Jerusalém, de Gonçalo Tavares


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Marco Polli

— Lembra-se — continuou Ernst — do que nos dizia muitas vezes: que a saúde mental de uma pessoa não estava no que ela fazia, mas sim naquilo em que ela pensava? Lembra-se de perguntar a cada um de nós: em que tens pensado? Lembra-se dessa pergunta, que nos metia medo?

Walter Benjamim ressaltava que o romance de ficção, em contraste com a narrativa oral, surgiu para ser experimentado de forma absolutamente solitária. Podemos acrescentar que o leitor está ainda mais sozinho com obras de autores como Samuel Beckett do que de outros como Marcel Proust. Nos romances Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser e Jerusalém — integrantes de uma tetralogia a ser completada brevemente por Aprender a rezar na era da técnica — o escritor português Gonçalo Tavares coloca-se no primeiro grupo. Seguimos os pensamentos dos seus personagens com frases curtas, modulares — justamente semelhantes à prosa de Beckett — que se recusam a se coordenar em uma textura narrativa bem delineada. Assim, mesmo entrando em contato com as suas motivações, tais personagens permanecem distantes, irredutíveis ao leitor. O texto de Tavares também está repleto de digressões sobre a guerra e a condição humana, porém, mais uma vez, elas não apontam para uma síntese maior — essas verdades fragmentárias servem como propulsão para a narrativa, mas só podem ser tomadas de forma ampla por um esforço especialmente desamparado de leitura.

Nos três livros, não há uma determinação exata de tempo ou geografia, porém são abordagens estilizadas sobre o totalitarismo e as conseqüências de um conflito avassalador como a Segunda Guerra Mundial. Um homem: Klaus Klump desenvolve-se em uma cidade ocupada, onde acompanhamos os residentes e invasores agindo por impulsos crus e violentos. Fazendo um contraponto, Joseph Walser possui obsessões próprias, ligadas à sua máquina de trabalho, que o fazem ser insensível ao conflito corrente. Já na narrativa de Jerusalém, estamos em uma situação pós-guerra: há, por exemplo, um veterano, Hinnerk — que desde a guerra leva consigo uma pistola e uma sensação de medo — e o médico Theodor Busbeck, que estuda na história a ocorrência de horrores como o holocausto, desejando não apenas compreendê-los, mas antecipar esse tipo de fenômeno. Porém, mesmo com diferenças perceptíveis entre as obras — a primeira é mais restrita tematicamente e violenta —, em Jerusalém os personagens são animados de uma maneira igualmente brutal e inflexível: antes e depois da guerra, pensam por caminhos semelhantes os soldados, loucos, burocratas, operários, senhoras e médicos.

No início de Jerusalém, uma mulher, Mylia, está nas ruas às quatro da manhã procurando alguma igreja que esteja aberta. Ela já havia sido diagnosticada com uma doença que lhe permitiria sobreviver apenas alguns anos a mais, porém, naquela madrugada, ela sente uma dor diferente a que está acostumada pela sua condição de saúde. Mylia reconhece positivamente essa outra dor como uma sensação de fome, entendo-a como um sinal de vitalidade. A narrativa retrocede no tempo e desenvolve-se de forma não-linear até retomar, nas partes finais do livro, esse episódio nas ruas. Acompanhamos Mylia identificada sempre com o signo da doença, ela própria se considera esquizofrênica. Recebendo-a por alguns anos como médico, Theodor Busbeck interessa-se por Mylia e os dois se casam. Theodor, descrito como “mais do que saudável”, considera que a sua esposa é doente em termos mentais, mas não física ou espiritualmente — para ele, toda pessoa saudável que encontrar Deus. Entretanto, depois de oitos anos de casamento, Theodor acha necessário protegê-la de si mesma e colocá-la em um hospício. Ao narrar as práticas dessa instituição junto às pesquisas de Theodor, Jerusalém estabelece um paralelo entre o controle e tratamento da loucura e as práticas higienistas dos regimes totalitários:

Perseguem as doenças estranhas. Perseguem os doentes estranhos. Quem tem uma doença estranha deixa de ser doente, entra na categoria do criminoso.

Ter uma doença normal significa que se obedeceu e se foi exacto nas funções. Uma doença estranha revela uma falha: faltou-se à higiene ou à verdade.

A idéia de que pessoas sãs e loucas são bastante próximas e de que há crueldade nas práticas de tratamento mental não são temas exatamente novos e ainda oferecem o forte risco de resvalarem para a condescendência, para o romantismo da loucura, mas Jerusalém consegue construir um olhar inusitado, apoiado pela força do texto. Mylia prossegue perto da doença: com um outro interno do hospício, Ernst, ela tem um filho deficiente. Este é batizado como Kaas, Theodor o registra como seu e se separa de Mylia. Se Theodor era descrito como um estudioso da loucura, ele passa a ser cada vez mais identificado com ela. Seu relacionamento com o pai e com Kaas é frio e perturbador. Além disso, outros pesquisadores vêem com estranheza crescente a suas idéias sobre o estudo do horror na história. Por fim, revela-se problemático também o tipo de interesse de Theodor por uma prostituta, Hanna.

O título Jerusalém vem de um salmo: “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita”, dito entre Mylia e Ernst. Ao fim, o episódio de Mylia nas ruas procurando uma igreja retorna mais bem explicado pela lembrança que ela tem sobre outras passagens bíblicas que lera no hospício. Sua ação também é coerente com o preceito de Theodor sobre a busca de Deus e a sanidade. Novamente, o texto se orienta fora da marcação realista simples e está mais próximo de uma literatura alimentada por suas próprias metáforas e digressões. O encaminho final da trama, em que serão estabelecidas ligações entre os personagens principais na mesma noite, não é totalmente satisfatório em face do que o livro havia construído. Talvez o que se chama da crise estética do romance seja o problema de terminá-los: resoluções de arcos narrativos, fatalidades e coincidências, mortes e transformações de personagens, ou, até pior, a simples recusa a uma conclusão parecem cada vez como reducionismos, meros truques simplistas. Mas esse problema, comum a diversas obras, não dilui a contundência de Jerusalém e da união que Tavares conseguiu entre duas tradições literárias aparentemente antagônicas — uma próxima de uma literatura pura e abstrata, como a de Kafka, Beckett e Calvino — e a outra preocupada em retratar a experiência histórica direta. Passando ao largo de qualquer conflito entre literatura realista e moderna, Gonçalo Tavares traz uma prosa firme e inspiradora pelo uso criativo que faz das suas influências.

Marco Polli. Nascido em 1973, criado no interior de São Paulo. Formou-se em Engenharia Química, mas ainda persegue fielmente a prosa literária. Mantém uma página sobre cinema e um blog.

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