Os desvarios de David Toscana
Gregório Dantas
Em entrevista concedida a André Miranda, e publicada no Globo recentemente, David Toscana reiterou a importância de Dom Quixote para sua literatura. E fez uma declaração interessante sobre certo gosto pela verdade muito em voga na ficção contemporânea:
A arte tem que ser delirante, imaginativa, selvagem, sublime. E oxalá a vida também fosse assim. Oxalá os leitores também fossem quixotescos, também quisessem viver em mundos diferentes dos seus. A literatura contemporânea está doente de realidade, porque as pessoas acreditam poder tocar a realidade; acreditam viver no mundo real; acreditam que, por se manterem informados, conhecem o real; acreditam que os noticiários mostram o que se passa. O mundo precisa se contaminar com o vírus de Dom Quixote. Na América Latina não deveríamos mais falar de alfabetização, mas de quixotização. Deveria ser leitura obrigatória. Ninguém deveria receber um título universitário se não demonstrasse conhecer Dom Quixote, ninguém deveria aspirar um cargo eletivo sem ter lido Dom Quixote.
(O Globo, 30 ago. 2007)
De certo modo, Toscana tem razão: vendem-se mais biografias e reportagens do que nunca, e a vida de personalidades ― sejam grandes figuras históricas, ou apenas as celebridades do momento ― é assunto quente. O que inclui, em alguns casos, um desmedido interesse pela vida dos escritores. Salman Rushdie disse certa vez que os leitores estão cada vez mais interessados nos escritores do que em seus escritos. O que é verdade. Além disso, romances históricos são muitas vezes lidos como documentos, quando na verdade já faz tempo que a prosa mais interessante abandonou tais pretensões e assumiu sua natureza ficcional. Mesmo quando fala de História (sem mencionar a própria historiografia).
Neste contexto, a idéia proposta por Toscana de que o leitor contemporâneo sofre de um “mal de realidade” é muito pertinente. Como remédio, a literatura do autor faz um elogio ao desvario, que afeta quase todos os seus personagens. Não à toa, os romances de Toscana vêm sendo associados a um certo “realismo desvairado”, rótulo que nos parece apenas parcialmente adequado. Porque de realistas seus livros não têm mesmo muita coisa.
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O enredo de O último leitor (2004), o primeiro romance de Toscana lançado no Brasil, lembra de início uma trama policial: na pequena cidadezinha de Icamole, Remigio encontra o corpo de uma menina no poço de sua casa. Mas o verdadeiro assunto do romance termina por ser não a investigação do crime, mas a literatura. Lucio, pai de Remigio, é um bibliotecário que passa fome, porque sua biblioteca não conta com nenhum leitor. O velho, então, passa os dias lendo as centenas de volumes que ainda estão encaixotados, censurando aqueles que não alcançam seus critérios de qualidade, condenando-os ao inferno da biblioteca: uma sala abandonada, tomada pelas baratas que banqueteiam as folhas dos maus livros. Totalmente imerso nesse pequeno mundo literário, Lúcio confunde a literatura com a realidade, a ponto de interpretar os eventos da cidade através de enredos de romances. Dois deles serão fundamentais: A morte de Babette, que conta o desaparecimento de uma menina; e A macieira, que revela como um assassino se livra do corpo de um garoto, e como este passa a atormentá-lo do além. Ambos os títulos, é claro, serão o substrato para Lucio compreender os eventos que envolvem seu filho e a menina morta.
É bastante interessante certa distinção feita por Lucio, a respeito de diferentes tipos de ficções. Ele acredita, por exemplo, que a devoção dos moradores de Icamole à Virgem de Guadalupe ou a Pancho Villa (o mito religioso e o histórico) também é uma forma de devoção romanesca:
[Os moradores] Rezam para um e para a outra, fazem seus próprios romances. Acreditam neles como você e eu acreditamos em Babette. Também acreditam na historinha da carta de Evangelina, acreditam nas Copla gualaupanas mesmo vendo só a capa, acreditam nos romances da Bíblia, em ressuscitados, anjos, arcas que carregam toda a fauna, inferno e paraíso, sol que pára, serpentes falantes, e porcos que se jogam em desfiladeiros, anjos, demônios, crucificados e tantas coisas que ninguém viu nem vê nem verá a não ser por meio de palavras; então não entendo por que se recusam a entrar na minha biblioteca, porque pensam que existe um abismo entre a vida e o papel.
(Trad. Ana Lúcia Pelegrino e Magali Pedro. Casa da Palavra, 2005, p.98)
A indignação de Lucio tem algum sentido: como os moradores podem criar tantas fantasias (históricas e religiosas) e não acreditarem na literatura? É como se as crenças do povo fossem um tipo falso de abstração, vazia de sentido. Como se fossem formas mais aceitas e legitimadas de ficção, enquanto a literatura tenha permanecido marginalizada. Mas para Lúcio é o contrário: a literatura não é apenas um dos caminhos para se entender a realidade, ela é a própria realidade. A idéia que prevalece, no trecho acima, é a de que a história e as religiões oficiais são tão ficcionais e fantasiosas quanto qualquer romance literário.
Já em Santa Maria do circo (de 1998, um dos livros que, injustamente, Lucio condenou ao inferno de sua biblioteca), oito integrantes de um circo em franca decadência se habilitam a re-fundar uma cidade abandonada. O que poderia parecer uma trama sobre caricatas figuras de uma pitoresca América Mágica revela-se outra coisa: os membros desta trupe são caricaturas falhadas (o anão que poderia ser mais baixo, o Hércules obeso), parte de um circo sem público (como a biblioteca sem leitores), anjos caídos de uma já antiga mitologia cultural e literária. Em questão estão as identidades desses novos habitantes (que serão sorteadas, como numa rifa) e uma história coletiva, que precisará ser construída. A propósito, diz um dos personagens, aquele escolhido para ser jornalista e historiador do novo lugarejo:
As histórias do anão sobre seus ancestrais não me parecem baboseira; sejam verdade ou mentira, é importante ter histórias; é isso que nos dá o direito de pisar num chão e ter um nome. (…) Precisamos fundamentar o direito de ser legítimos proprietários de Santa Maria do Circo, e para isso é preciso ter uma história, com personagens ilustres e feitos heróicos. (…) Como jornalista, posso me ocupar das notícias diárias, alguma coisa tem que acontecer, e posso, simultaneamente, ir documentando nossa história; pedirei ao Mandrake que repita para mim as palavras da fundação, e as datarei há trezentos anos, atribuirei a fundação a um bom moço espanhol que depois acabou na fogueira da Inquisição acusado de judaizante; falarei de grandes catástrofes, porque todos os povos têm furacão, terremoto, incêndio ou peste dignos de ser narrados de geração em geração; criarei nossas lendas, como a do circo errante, que cada oito de agosto, dia em que as feras devoraram a bela Penélope, faz um desfile noturno de almas penadas; tudo por escrito, pois soas palavras impressas têm peso de verdade.
(Trad. Maria Alzira Brum Lemos. Casa da Palavra, 2006, p. 83-4)
O bibliotecário de uma cidade que não lê e os fundadores de uma cidade fantasma são encarnações de um sentido que costumamos chamar de quixotesco. Não apenas porque estão dedicados a uma causa impossível, uma quimera, como também porque confundem o real e a ficção. Estão dispostos a ficcionalizar a realidade, sem fazer uma distinção entre o que seja verdade e o que seja invenção. Uma das intenções de David Toscana parece ser chamar a atenção do leitor para o estatuto ficcional do texto, como se fizesse um elogio à mentira literária. Para tanto, ele trabalha com o estranho, o insólito, o bizarro, tratados com naturalidade, como se fossem eventos banais. Santa Maria do circo, por exemplo, reúne algumas taras, esquisitices e arbitrariedades dignas de um filme de David Lynch. Se a literatura é estranha, quem dirá a realidade.
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O exército iluminado (2006), último romance de David Toscana, talvez seja o livro que desenvolve de maneira mais fiel o sentido do que seja “quixotesco”. O romance se inicia com uma cena bastante insólita. Dois homens, ao lado de uma linha de ferro, contemplam um cadáver cortado em quatro partes. Em uma atitude respeitosa, um dos homens dirige-se até o corpo, constata que a cabeça continua presa ao tronco e, então, enlaça o pescoço com uma medalha olímpica. O tal morto, descobrimos logo, é Ignácio Matus, “o último dos heróis nacionais, o salvador da pátria”. Polêmico professor de História, foi despedido por propagar algumas inverdades, dentre elas a de que o território hoje conhecido como Texas ainda pertence por direito à nação mexicana. Empenhado em montar um exército que reconquiste o que é de seu país, o máximo que Matus consegue é a adesão de cinco jovens, todos com diferentes tipos de doenças mentais. Juntos, esse exército chamado de Iluminado parte numa improvável, absurda e, de certa forma, heróica missão: resgatar o Texas para os mexicanos.
Da mesma maneira que Dom Quixote entrava em uma estrebaria julgando estar adentrando o castelo de um rei, o exército iluminado tira as conclusões mais fantasiosas da observação de coisas banais: um riacho é tomado pelo grandioso Rio Bravo, um incidente de viagem tratado como uma aventura de risco de vida, qualquer passante pode se tornar um ameaçador “gringo” do exército inimigo. E Toscana, como seus heróis, não está preocupado com a verossimilhança tradicional. Por exemplo: clinicamente, seus doentes mentais muito provavelmente não integram nenhuma categoria conhecida. São capazes de considerações que imaginaríamos sofisticadas, complexos vôos de fantasia expressos em frases bem construídas, embora não consigam realizar uma conta matemática simples. Destaque para o impagável gordo Comodoro, que sofre as maiores humilhações do grupo, mas também é capaz dos maiores vôos imaginativos:
Uma batalha inesquecível requer cenas que possam ser passadas de boca em boca, de geração para geração, piadas que escapem da mera troca de munições, histórias sobre o homem que continuou lutando apesar das oito balas no corpo, ou sobre o soldado valente sem pernas que subiu a muralha da fortaleza, ou sobre o menino que com o último suspiro fez voar a barragem cujas águas afogariam centenas de inimigos. E eu estou aqui para isso, o ilustre Comodoro, o sobrevivente do Rio Bravo, o driblador de piranhas, o condestável e predileto da imaculada, estou para dar histórias à história.
(Trad. Michelle Strzoda. Casa da Palavra, 2007, p. 123-4)
Os iluminados crêem não exatamente na literatura, mas em uma fantasia que suplanta a realidade. Suas expectativas são visivelmente criadas a partir de lugares-comuns das histórias de guerra que conhecemos do cinema e dos livros. Deste modo, eles estabelecem um estranho mas rígido código de honra e de guerra.
E como o anão de Santa Maria do circo, que sonha com antepassados fabulosos, os iluminados estão comprometidos e escrever sua história, inserirem-se nos feitos grandiosos da pátria. Para David Toscana e seus personagens, a História oficial se faz através da fantasia. É tudo uma questão de contar histórias. E de crer nelas, como provam a religião e a História oficial.
É preciso dizer, contudo, que fantasia, aqui, não significa idílio. Pelo contrário: o motivo da medalha supostamente olímpica concedida ao “general” Matusé sua obsessão pelos maratonistas gringos que dominam os jogos Olímpicos. Matus organiza sua maratona pessoal, a milhares de quilômetros da sede “oficial” das Olimpíadas, e corre como se dela fizesse parte, perseguindo a imagem de seu adversário gringo, mas também, de certa forma, fugindo de seus medos e misérias. O mesmo no que se refere à sua jornada pela libertação do Texas. Talvez esse quixotismo represente uma busca ou afirmação por identidade que é também mexicana.
Infelizmente, os iluminados estão destinados a não serem reconhecidos pela História. Nunca a alcançarão efetivamente, fora de seu devaneio. Neste sentido, se a fantasia é tudo que se tem, ela também pode ser bastante cruel. E irônica, haja vista que os feitos grandiosos desses heróis anônimos podem ser esquecidos em favor dos mesmos gringos que combatiam. E seus feitos igualmente fantasiosos.
Gregório Dantas é doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp. Colabora regularmente para o Rascunho – jornal de literatura e escreve em seu blog.





Do Toscana, li O Último Leitor. Fiquei com a impressão de que o livro poderia ter rendido mais. Algumas passagens são memoráveis - por exemplo, o enterro da menina debaixo da árvore -, mas Lucio me pareceu um pouco histérico e excessivamente cheio de verdades. A resenha, porém, me deixou com vontade de ler o Santa Maria do Circo.
Sabe, Felipe, agora que você falou, acho que você talvez tenha razão. É um pouco histérico mesmo o comportamento do Lúcio, “cheio de verdades”, como você disse. Ele é um intolerante, digamos assim. Isso não me faz gostar menos do livro, mas vou pensar a respeito. Acho que há algo de patético no comportamento dele, como quem se afoga, sozinho, numa poça d’água. Ninguém está nem aí. Em Santa Maria do Circo, os personagens são um pouco assim, também: parece uma conversa de loucos, muito non-sense. Mas também tem umas imagens ótimas, meio David Lynch no deserto mexicano (se é que isso faz algum sentido). Estranho.
Em O exército iluminado, essa certeza patética (ou quixotesca) dos personagens talvez tenha encontrado uma expressão mais equilibrada. Porque os loucos, aqui, são também personagens tenros. Despertam mais a nossa simpatia.
De qualquer modo, acho que o David Toscana um escritor e tanto. Espero que goste, também, dos próximos livros.
Abraço!
Gregório, sua resenha me deixou com vontade de ler outras coisas dele, dar uma segunda chance. A idéia de quixotesco se enquadra bem a O Último Leitor, talvez seja o caso de repensar o Lucio. Na sua mensagem, você tocou no ponto que não consgui expressar: a ausência de uma expressão equilibrada, que muitas vezes se manifesta como um tipo de meta-discurso sobre o literário meio assim assim. Mas parabéns pela resena!
abraço, Felipe
Confesso que não conhecia nada do David Toscana até ler esta resenha, mas pelo que percebi ele se assemelha muito ao Gabriel García Márquez, pelo menos no aspecto fantástico. Estou certo?
Não sei bem… acho que mais ou menos.
Quando eu penso no Cem anos de solidão e lembro de tapetes voadores, gente levitando e fantasmas na cozinha, aí eu acho que o David Toscana tem pouco a ver com o Garcia Marquez. O Toscana talvez seja mais “esquisito” (no bom sentido) do que “fantástico”. Tem uma situações no Santa Maria do Circo que não são sobrenaturais, mas que são bem bizarras.
Mas talvez a gente possa ver alguma semelhança na maneira como os personagens de Toscana são “deslocados” em relação ao mundo racionalista. De certa forma, os personagens de Garcia Marquez também são, e seus livros tratam muito do confronto, por exemplo, entre a Cia Bananeira estrangeira e a cidade intocada no interior latino americano.
Talvez isso seja um traço comum na literatura do continente (não que seja uma regra, muito pelo contrário. Mas talvez seja recorrente em certos autores). Mas é um assunto muito amplo. E que envolve, por exemplo, o repúdio que alguns autores demonstram para com o rótulo do realismo mágico. Toscana, até onde sei, elogiou o Garcia Marquez.
Sei que não respondi nada, mas é essa a minha impressão. De qualquer maneira, acho que vale a pena comparar, nem que seja para só achar diferenças.
Alguém aí concorda?
Abraço!
Imaginei uma comparação mais com os contos no estilo do A luz é como água do que o Cem Anos.
Se bem que, olhando de perto, ambos seguem o mesmo caminho.
Vou procurar ler o Toscana em 2008 pra poder tirar esta pulga.
1 abraço.
E eu não conhecia esse conto. Boa dica!