Celebração do afeto
Mariana Ianelli
Não olhamos duas vezes para o mesmo céu quando nele desponta uma nuvem chamada Marco Lucchesi. Única e multiforme, esta onda, que é imagem do presente, e que por sua própria volubilidade permanece, paira sobre a areia do deserto, tão silenciosa quanto sonora sob o canto das esferas. Pois é justamente esse mistério de som e silêncio, de que se faz a duração da música, que também compõe A memória de Ulisses e Meridiano celeste & Bestiário, os livros recém-lançados de Lucchesi.
Do primeiro, poderíamos dizer que apresenta uma ampla coletânea de textos críticos e ensaios do autor sobre literatura, história, filosofia e tradução; o segundo é seu mais novo livro de poemas. Mas dizer isso pouco ou nada representa diante da natureza do que nós, leitores, temos em mãos. Em linhas gerais, para compreender sensivelmente essas obras, com o “saber dos sentidos” de que falava Octavio Paz, convém fazer aqui uma aproximação com a ordem dos astros, e dizer que A memória de Ulisses apresenta a partitura de uma música que se encontra em plena execução em Meridiano celeste & Bestiário .
Não é à toa que Lucchesi dedica os textos de A memória aos seus pianos. No ponto de delicada (e fulgurante) convergência entre o poeta, o crítico e o tradutor, mais que quaisquer considerações sobre método, técnica ou locais de discurso, o que ressoa nesse livro é a vitalidade de um pianista das letras capaz de tocar com o corpo todo, tão generoso em seu entusiasmo que não se furta ao risco do erro, e que melhor se dá a ouvir havendo a participação ativa do leitor. Estamos, portanto, diante de um livro que, contra o fluxo de tendenciosas concessões, omissões ou assepsia por parte da crítica no estudo da literatura, propõe corajosamente o caminho do diálogo, do sábio convívio com a diferença, e, enfim, da celebração do afeto, na atitude de uma liberdade responsável. E participar dos textos de A memória significa ouvi-los ecoar ao som deste outro piano imaginário que, como já nos escreveu Drummond, “está no fundo / da casa, por baixo / da zona sensível, muito / por baixo do sangue.” Ainda além: “Está por cima do teto, mais alto / que a palmeira, mais alto / que o terraço, mais alto / que a cólera, a astúcia, o alarme”.
Movendo-se, assim, nessa atmosfera de intensa admiração pela arte poética e, sobretudo, movido por um elogio ao pensamento, Lucchesi desenha o mapa de suas afinidades, muitas das quais comparecem em seus ensaios para então ressurgir em seus poemas, não mais nos pontos de um planisfério íntimo, mas luz de verdadeiras estrelas. São alguns desses casos Nise da Silveira com “seus dedos de El Greco (…) e suas pupilas de fogo / mais o brasão da rosa / cercada de espinhos”, Antonio Vieira, a quem o poeta se dirige em memorável estado de graça: “obrigado / Vieira e os dias / que passei guardando / as armas / de Portugal contra as de Holanda” e Djalal ad-Dîn Rûmî, cujos passos o poeta Lucchesi persegue desde antes da publicação de Bizâncio, e que lhe retornam aqui e agora, nas páginas de seu Meridiano: “a lua resplandece / majestosa / como a fúlgida / espada de Djelal”.
A ponte entre o Oriente e o Ocidente vibra, serpenteia, flutua, como uma chama assente sobre um espelho, algaravia refletida no horizonte e abaixo dele, em seus multiplicados azuis: “aquele azul / quase invisível” que “reclama / outro mais fundo / e impronunciável”; o azul da voz de Nise, dos mares de Ulisses; e ainda tantos outros, murmurados há tempo nos versos de Bizâncio, e lá presente em um poema de Sphera, “o azul inacabado / de Isfahan”, que voltaria uma vez mais, tomando emprestada a voz do crítico em A memória: “nunca houve e jamais há de haver azul mais sereno que a mesquita de Isfahan”. E, tal como a vida que “reclama obstinada / suas parcelas / de infinito”, também cada um desses tons deixa-se presidir por uma cor só, palavra-estrela do poeta: “(havemos / todos de ressuscitar / um dia sob esse mesmo / azul)”.
Da leitura do mundo à vida das línguas, Lucchesi segue visitando as coisas que existem para ser amadas na carne, e são paisagens da carne dunas e jardins, templos e abismos: cidades do poeta varadas de solidão, mas de uma “solidão comunicativa”, como a que o jovem Lucchesi soubera reconhecer décadas atrás em Herman Hesse. E da poesia são as formas ora possíveis, ora fugidias “para as quais / se volta / essa imprecisa / fome de beleza” que a palavra procura saciar, mas que, ao contrário, sempre atiça, quando regressa “ao seio do silêncio”, no grito de dentro, igual à flor de Paul Celan.
E muito fica por ser dito sobre as variações melódicas desta nuvem “árdua pluriforme / ligeira / e imperscrutável” que é Marco Lucchesi, a rasgar o firmamento da literatura com sua humana resistência de “pensamento-corpo, vísceras e coração”; um apaixonado pelo diálogo de tal sorte que vem honrar a antiga tradição dos bestiários, criando o seu próprio, com encantos brasileiros. Pois um de nós imprima no ultracéu, e em todos reverbere:
“Ó viva Poesia!”.
O texto foi originalmente publicado no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo e gentilmente cedido pela autora para a publicação na Revista Malagueta.
Mariana Ianelli nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Jornalista e mestre em Literatura e Crítica Literária, é autora dos livros Trajetória de antes, Duas chagas, Passagens, Fazer silêncio e Almádena, todos pela editora Iluminuras. Como resenhista, colabora atualmente para os jornais O Globo – Prosa&Verso (RJ) e Rascunho (PR). Mais informações em seu site.




