O sol se põe em São Paulo
Vinicius Jatobá
Bernardo Carvalho é o narrador do esgotamento das convenções narrativas usuais. Seus romances possuem uma lógica própria, e são frutos de um projeto inusual dentro da literatura brasileira. Não seria o caso de cosmopolitismo contra provincianismo; seria mais o caso de um texto que elege a si próprio como nação, elege sua sintaxe como pátria. Antes de Nove noites, Bernardo Carvalho pode ser encarado como um talentoso prosador em busca de um tema que fizesse justiça ao seu luxuriante manejo de linguagem: frases que duram páginas, jogos de metáforas, simetrias entre capítulos — seus romances eram jogos com regras próprias, mas como todo jogo podiam ou não ter participantes dispostos a compreender seu funcionamento. Eram livros cuja carpintaria excessiva traziam mais admiração ao adorno que à substância — um prazer meramente intelectual, e até certo ponto pedante: livros de Bernardo Carvalho para leitores como Bernardo Carvalho. Nove noites gera uma nova recepção à prosa do escritor. É um livro diferente, o produto de uma série de escolhas retóricas que já estavam no corpo de livros como Onze e As iniciais.
Na ordem na construção narrativa, Carvalho quebra a sintaxe complicada (e até complicadora) que foi sua tônica desde seu primeiro livro de relatos. O que é simples passa a ser nomeado diretamente; o que é complexo passa a ser descrito da maneira mais simples possível. Esse empobrecimento, longe de banalizar a substância romanesca, a sabedoria romanesca, faz com seu livro aproxime-se curiosamente do registro oral. Assim com o narrador dialoga com as fontes, o leitor torna-se mais espectador que decodificador da ação narrativa — a aparência narrativa ainda é de indiferença em relação ao público, mas a nova velocidade com que o leitor alcança a metáfora dramática que Carvalho desenha e desenvolve faz com que a energia da busca que permeia o livro também contagie a curiosidade. É impossível se identificar com os narradores de Carvalho; no entanto, a curiosidade, a busca, certo elemento de suspense construído pelo narrador, faz com que Nove noites se torne um romance de leitura extremamente agradável. É compulsiva a leitura; e gratificante a investigação que ela engendra. A indiferença gera cumplicidade.
O leitor partilha dessa busca pela verdade que movimenta os narradores de Carvalho — seja a busca do paradeiro do Ocidental, o motivo de um suicídio ou a reconstrução de um triângulo amoroso no Japão devastado pela segunda guerra. O que faz com que o leitor se interesse é que Carvalho dedica-se à construção da personagem do narrador, não em seus aspectos biográficos, mas na forma como a mente funciona. Sua busca é crível, apesar de que o universo em que transita seja pantanoso. E parte do fascínio do leitor pelas mais recentes narrativas de Carvalho reside no mecanismo das metamorfoses tanto das versões de um evento retomado inúmeras vezes, como da identificação crescente do narrador pelo objeto de sua busca, convergindo constantemente no risco de tomar para si a essência daquilo que busca. É o gesto mecânico de refazer o caminho; e é o desejo pouco simulado de assumir características alheias à própria identidade retalhada.
O enredo dos últimos três romances — a investigação de um suicídio; a investigação do paradeiro de dois desaparecidos; a investigação sobre uma estória de amor e exílio — é apenas o prego onde Carvalho pendura seu verdadeiro romance: texto que nasce da depuração de eventos visados a partir de outros textos; escrita que se funda enquanto crítica textual de outros relatos. Cartas, diários, máscaras, gestos — tudo é legível aos olhos narrativos da máquina romanesca de Carvalho. O narrador movimenta-se para diluir as ambigüidades e mistérios do mundo que o cerca, todas as duplicidades, mas nessa pesquisa acaba por gerar mais um simulacro: esse texto em busca de unidade que escreve, mas cujo desenvolvimento se dá apenas pelo conflito entre versão, revisão; entre fato, interpretação; entre relato oral, e malha de textos; entre experiência revivida, experiência encenada. O leitor é quem irá ter, ao final da leitura, o espectro total que o narrador não conseguiu amarrar.
É nesse aspecto que talvez, longe da prosa que busca refazer o sentido pluralizado pela realidade, o tema de Carvalho é implodir o aspecto mitológico dos relatos sacralizados. Seja no convívio entre fantasmas de Nove noites, com seus relatos herdados pela violência seja do suicídio, seja por uma segunda morte misteriosa; ou no convívio tenso entre guia e viajante em Mongólia, na barreira da língua e no choque cultural, e na impossibilidade de transferir valores; e também no narrador que mergulha numa Japão que desconhece e que apenas poderá tomar mais pela influência da literatura de um escritor marginal que pelos relatos diretos e dúbios que o espaço lhe indicará. O que parece é que Carvalho é o escritor brasileiro que melhor se posiciona contra certa tendência de neutralização de relatos insuficientemente explicados do passado recente e que, justamente pelo excesso de narrativas do mundo contemporâneo, são colocadas de lado e catalogada entre as estórias já assimiladas pelo corpo social. O suicídio explicado pela doença; os desaparecimentos sugeridos pela geografia; o amor apreendido enquanto teatro — todas essas encenações, quando tocadas pela magia da máquina narrativa de Carvalho, entram em crise e, o que me parece ser a intenção do projeto inteiro, voltam a falar do mundo silenciado pelo excesso de realidade.
O texto foi originalmente publicado no Portal Literal e gentilmente cedido pelo autor para a publicação na Revista Malagueta.
Vinicius Jatobá é crítico literário e colabora com o Estado de São Paulo e EntreLivros. Suas resenhas e algumas notas culturais podem ser encontradas em seu blog.




