Sob o signo da ruína
manuel a. domingos
Iniciado em 1975 e terminado em 1979, Signo Sinal é um romance escrito em tempo de crise: uma revolução realizada (mas longe de estar completamente concluída) expulsara da vida política portuguesa o ditador e a ditadura cuja presença se impôs por quase meio século; os governos sucedem-se uns aos outros, e não existe um sinal claro de que toda a situação estabilize; o país, à beira da bancarrota, é salvo pelo dinheiro injectado pelo Fundo Monetário Internacional.
A revolução veio, assim, sacudir o país de ponta a ponta, alterando a ordem histórico-social e o sistema de poder. A ligação com o terramoto, presente no romance de Vergílio Ferreira, é por demais evidente: o terramoto veio abalar a terra da condição humana, onde os edifícios fundados por um princípio orientador são apenas ruínas: a escola, a igreja, o padre, o professor (representantes das instituições) são já escombros. Assim, as ruínas de um tempo amontoam-se e expulsam o homem da sua morada, embora nada se pudesse comparar à liberdade que a revolução instaurara em todos os portugueses, além de desencadear uma vontade de progresso que a ditadura quis impedir. Assim, à deriva, o homem procura a casa que o abrigará.
Deste modo, a ruína, em Signo Sinal, é uma característica que percorre todo o romance, no qual até as personagens são por ela atingidas, tanto suas características físicas, como morais. O grotesco é construído sobre a invalidez que marca algumas das personagens: o Coxo, a Muda, o Arquitecto. A própria moralidade é um reflexo da própria ruína, pois a distância entre um modelo de virtudes e os hábitos comuns a todos revelam os vícios de homens doentes, nos quais a máscara social é mantida através de uma teia de negociações, representada por tudo aquilo que o protagonista é e pelo que as pessoas à sua volta esperam que ele seja.
Em todas as personagens «o verbo é um jogo: tudo fala mas nada exprime a fundo, são imagens sonoras que atravessam o espaço temporal sem fecundá-lo, apaziguá-lo ou retê-lo» (Mesquita, 2004). Porém, é a ruína ideológica (aquela que deixa no ser humano a semente da apatia), que mais se sente em Signo Sinal: sabe-se que algo deve ser feito e, por vezes, chega-se mesmo a saber o que deve ser feito, mas não há aquilo que o impulsione a fazer. Esta ruína é, sem dúvida, projectada no protagonista, que se sente preso pela origem a uma terra que, sob os seus olhos, viu arrasada. A ausência de orientação (necessária para encontrar um centro ordenador do cosmos), a incapacidade para tentar expulsar uma vida contaminada pelo tédio do quotidiano e reconstruir, a partir da ruína, a evidente inexistência do fio capaz de auxiliar o homem na tarefa de livrar-se do labirinto onde se encontra são elementos que vêm à superfície e que demonstram ao sujeito, que é o detentor da acção, que o tempo está suspenso. Assim, «a narrativa fecha-se sem avanço. O que Luís Cunha vê tem as cores da podridão e da morte: são muros inacabados, precocemente arruinados, (…) apodrecendo no escuro» (Pereira, 2004). O que se sabe é a ausência de qualquer chave para o mistério, no qual o sonho de reconstrução da vida paralisa-se, sem perspectiva de futuro.
Em Signo Sinal, é toda a miscelânea dos dramas humanos que ali se propõe e que nos propõe. A própria «questão magna do tempo e o modo interseccional e flutuante como nele o eu se organiza e constitui é peça temática importante neste romance de marcada ressonância nietzschiana e em que o Arquitecto joga um papel fundamental de desdobramento identitário, contribuindo para uma vivência, mais que caótica, condensada do próprio tempo.» (Sousa: 2003, 75). O sinal é, assim, o ícone visível de um deus que está a mais no altar e que de lá tem que ser retirado quanto antes; enquanto que o signo é o rasto invisível do que desse deus de barro persiste no coração do homem e lhe provoca a imaginação.
São as contradições que existem entre a irreparável decadência de uma cultura que se dissolve e o sonho de novos valores, à volta dos quais se possa reorganizar uma outra, que asfixiam todo o movimento, e onde o absurdo tende à sua integração no próprio universo vivencial. Como refere José Luis Gavilanes Laso: «en Signo Sinal, el hombre es sólo testigo y víctima de fuerzas sobrehumanas sobre las que no tiene poder. Con otras palabras (…) el fenómeno cósmico desencadenante y ajeno a la voluntad humana parece disipar toda esperanza de salvación para el hombre y para el mundo.» (Laso: 2003, 225).
Deparamo-nos, ainda, em Signo Sinal, com o tema/problemática do fim do mundo e o tema/problemática da suspensão da história. Tal problemática tem a suas consequências. A mais óbvia refere-se ao plano da organização do texto, pois torna-se difícil a formulação de uma ficção, segundo os critérios tradicionais. Signo Sinal vem assim concretizar algo que já se começava a formular em outros romances de Vergílio Ferreira, «a escrita emerge, não sobre um fundo de narrativa possível, mas sobre a impossibilidade de qualquer narrativa. Por dois motivos: por um lado, porque a História, embora mexa, apenas gesticula insensatamente, parada que está enquanto motor de uma qualquer negatividade; em segundo lugar, porque o próprio narrador não acerta com a agitação da História, acabando por ficar à margem dela.» (Coelho: 1980, 61). Desta maneira, o romance deixa de ter em si uma dimensão romanesca, passando a ser uma combinação de várias mininarrativas sobre um passado vivido efemeramente por personagens também elas efémeras. Todo o resto são alegorias que surgem devido à paralisação da História. O ponto fulcral do romance pode ser encontrado na impossibilidade que se torna a escrita do próprio romance, daí, segundo Eduardo Prado Coelho, a existência de dois espaços: o espaço da aldeia (que é apenas a carcaça de uma narrativa impossível) e o espaço da praia (que se encontra inteiramente disposto para a aparecimento da escrita) (Idem).
Signo Sinal instala-se no campo da desordem ideológica, no alarido das opiniões, na ramificação de cada coisa no seu oposto e no oposto do seu oposto, onde existe uma bifurcação furiosa de todas as evidências em verdades e mentiras sem prova e sem acalmia, «quer por meio das violentas imprecações que homem e terra, destino e usura, indivíduo e grupo se lançam numa atmosfera de decisivos julgamentos» (Seixo:1986, 56).
Referências
COELHO, Eduardo Prado, «Signo Sinal, ou a resistência do invisível», em Colóquio/Letras, número 54, Lisboa, 1980.
FERREIRA, Vergílio, Signo Sinal, Lisboa: Bertrand Editora, 1990.
GOULART, Rosa Maria B., Signo Sinal de Vergílio Ferreira: a experiência do real, Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 1981.
LASO, José Luis Gavilanes, «Notas para una fenomenología de la muerte en la obra vergiliana», em Maria Joaquina Nobre Júlio (org.), In Memoriam, de Vergílio Ferreira, Lisboa: Bertrand Editora, 2003.
MESQUITA, Daniele de Lima, A Ruína, consultado em 29 de Dezembro de 2004.
PEREIRA, Luci Ruas, Húmus e Signo Sinal ou O diálogo possível entre romances de um tempo de crise, consultado em 29 de Dezembro de 2004.
SEIXO, Maria Alzira, «Vergílio Ferreira, os Modernos, os Pós-Modernos e a questão das dominantes», em Colóquio/Letras, número 134, Lisboa, 1994.
SOUSA, José Antunes de, Vergílio Ferreira e a Filosofia da sua Obra Literária, Lisboa: Arion Publicações, 2003.
manuel a. domingos (1977) nasceu em Manteigas. Publicou Entre o silêncio e o fogo (poesia, 2002), pelo Aquilo Teatro (Guarda), e Mapa (poesia, 2008), pela Livrododia (Torres Vedras). Foi colaborador do DNJovem e da revista Rodapé (Biblioteca Municipal José Saramago – Beja). Tem colaboração dispersa nas revistas Praça Velha (Guarda), Palavra em Mutação (Porto), Sulscrito (Faro) e Big Ode (Lisboa). Está representado na antologia Contos de Algibeira, pela Casa Verde (Porto Alegre, Brasil). É colaborador da revista on-line de micronarrativas Minguante. É co-autor (com António Godinho) da peça de teatro Eu queria encontrar aqui ainda a terra, que teve estreia em Maio de 2008 no Teatro Municipal da Guarda. Escreve em seu blog.




