Os lados dos lados do círculo


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Kelvin K.

O escritor gaúcho Amilcar Bettega Barbosa publicou três livros de contos: O vôo da trapezista, de 1994, Deixe o quarto como está, de 2002, e Os lados do círculo, de 2004, ganhador do prêmio Portugal Telecom. Esta resenha expõe, em tópicos breves e correlatos, a relação de recorrência e circularidade presente entre o primeiro e o terceiro livro de Bettega.

O círculo (I): O círculo, nos contos de Bettega, é a imagem que concentra em si, simultaneamente, o acaso e a deliberação meticulosa. A cada releitura, minha percepção oscila de um para o outro e sempre me questiono: será que esse elemento aqui é uma chave interpretativa ou só mais um detalhe?, qual a diferença entre eles?

O vôo da trapezista contém treze contos bem variados, ambientados em tempos e espaços bem diversos. O último conto do livro, “O tempo das frutas cítricas”, depois de contar a história trágica de um menino que morre ao despencar de um balanço de pneu (embalado pelo próprio irmão), surpreende com o aparecimento do narrador, que diz:

Restam inúmeras folhas em branco à minha frente e me agrada a idéia de reiniciar esta história. E talvez a recomece na próxima linha, com Carlos, André, quem sabe com Maria, e Carlos matando André pelo amor de Maria. (1994, p. 77)

E dessa forma se encerra o livro. Esse corte, a aparição da consciência da ficção, depois de um relato tão denso e bem urdido (essa súbita volta à “realidade”), é o primeiro ponto forte a destacar no trabalho de Bettega.

Os nomes, no fim desse conto, são fundamentais, bem como a idéia de reinício (de término sempre suspenso) e a expressão “próxima linha”, que retorna em Os lados do círculo como título do primeiro conto. Nesse conto, Carlos e Maria estão observando o sol se pôr em Porto Alegre, até que Maria diz que “ele” lhe procurou. Carlos fica transtornado com esse retorno, o retorno de André.

As afinidades (I): Lado a lado com a idéia de que a literatura é um espaço aberto de retomadas e reinícios, é possível dizer que não haveria Amilcar Bettega sem Julio Cortázar, assim como não haveria Cortázar sem Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe, por exemplo, e assim sucessivamente, do presente para o passado e vice-versa.

Há um procedimento no conto “Círculo vicioso”, de Os lados do círculo, que retoma aquele realizado por Borges em seu conto “O jardim de caminhos que se bifurcam”: voltamos ao ponto de partida da história ao saber que ela está sendo transmitida por uma notícia de jornal. A circularidade dos contos condensa o tempo decorrido, produzindo um estranhamento estético. (“li a notícia nos mesmos jornais em que apresentaram à Inglaterra o enigma do sábio sinólogo…”, em Borges (1983, p. 82), e em Amilcar: “estava naquele mesmo El País que Roberto Guedes folheava enquanto bebia…” (2004, p. 45).

“Círculo vicioso” atualiza também o espaço geográfico utilizado amiúde em Borges: o campo. Conta a história de um jornalista brasileiro que lê a notícia de um assassinato. Isso o leva a Buenos Aires, onde parece entrar em contato com fatos que se desencadeiam ao longo de muitos anos, que revisitam as vítimas da ditadura argentina e lendas locais obscuras. Tudo conflui, no final, para a notícia no jornal, que parece ainda ser a mesma.

O estilo (I): O campo aparece também em O vôo da trapezista, lado a lado com um trabalho de linguagem que não se repete mais em Os lados do círculo. Trata-se de uma outra aproximação, realizada na coloquialidade e na hibridização do discurso, mais do que de ordem temática.

O conto se chama “O filho da terra” e é bastante curto: a história de um menino que não se adaptava à vida no campo e foge, voltando anos depois, homem feito e instruído. Procura o pai e este não o reconhece.

O campo aparece mais na ficcionalização das vozes do que propriamente nas descrições:

O tempo foi tirano com nosso povo. Rarearam a plata, a comida e o trabalho. A vida se tornou dificultosa e na vila amontoou-se uma piazada, um mulherio debalde e muito marmanjo na flor dos anos. (1994, p.64)

O amor: Talvez seja só eu, mas o amor aparece como um tema central nos contos de Bettega: são triângulos amorosos, despedidas, brigas passionais, ciúmes, enfim, muitos elementos que circulam por esse universo.

Em O vôo da trapezista, o conto “O trem não pára”, obra-prima de ritmo e concisão (que lembra e supera, na temática e no estilo, o conto “Para uma avenca partindo”, Caio Fernando Abreu), toca questões como o tempo, o acaso, a distância, enquanto narra a despedida de dois jovens em uma estação de trens da Europa.

É dos resíduos de amores fragmentados que parece emergir a oportunidade de contar uma história, a história de Carlos matando André pelo amor de Maria, ou de Breno machucando a si próprio pelos ciúmes que sente de Ana com Alfredo, em “Teatro de bonecos”, ou do personagem Amilcar, escritor, que oscila na vertigem de um amor que não existe mais, em “Crônica de uma paixão”, ambos de Os lados do círculo.)

O estilo (II): A alternância nos registros discursivos é outro ponto forte da escritura de Bettega. O que faz com o campo em “O filho da terra”, de O vôo da trapezista, retoma em “Verão”, de Os lados, trocando o campo pela Vila Cruzeiro, em Porto Alegre, onde um sujeito que dirige um Tempra atropela um cachorro, desce do carro e, depois de um pouco de conversa e ameaças, é linchado pelos habitantes do local.

A caracterização é excelente:

O calor sem vento deixa o fedor parado no ar. É hora do almoço, a cachorrada revira um monturo, vai fazendo a festa boa da comida. (2004, p. 70)

Bem como os diálogos:

Chulé (gritando e agitando um pedaço de pau na mão): A gente tá esperando o pagamento! Clodoaldo: Te coça, meu. Gurizada: (em coro, como torcida de futebol): Paga! Paga! Paga!. Wagner Henrique não diz nada. Os caras cercam. (2004, p. 75)

As afinidades (II): Borges aparece novamente por trás do conto “O sol vertical e uma bala no tambor”, também no campo, em algum recanto latino-americano perdido, com uma estátua do “Grande Libertador”, governada pelo Intendente Coronel Santiago Beviláqua. No dia do nascimento de seu filho, o Coronel sonhara com o homem que agora aparece, um avatar do destino, da tragédia e da inexorabilidade do tempo. Em um conto tão curto, é interessante observar a intensidade conseguida na oscilação do Coronel entre a resignação perante o destino (que ele mesmo profetizou em sonho) e o esforço em retardá-lo.

Cortázar aparece muito em Os lados do círculo, sendo inclusive personagem de um dos contos, “A/c editor cultura segue resp. cf, solic. fax”: um escritor (Amaro Barros, autor de Emparedado, presente na epígrafe de Os lados do círculo, um livro que só existe dentro de outro livro, circular e autoreferencial) encontra Cortázar em um café, que deixa na mesa um envelope que contém um conto inédito. O conto permanece com Amaro Barros até a morte de Cortázar. Ele se apropria da história, das mais variadas formas. O conto seguinte do livro, “Mano a mano”, é todo escrito assim, em itálico. O título é sugestivo em sua dupla possibilidade para o espanhol e para o português, e emula Cortázar em suas tintas fantásticas, em sua temática do delírio, da doença e do surreal. Como se fosse, efetivamente, um manuscrito perdido de Cortázar.

Iniciando e finalizando Os lados do círculo, há um conto em duas partes: “O puzzle (fragmento)”, no início, e “O puzzle (suite et fin)”, no fim. Os personagens principais de todos os contos se reúnem, na beira do rio Guaíba, em Porto Alegre, cada um com um objeto que trouxe de casa, e juntos formam composições. As esculturas amanhecem ali, e dias depois eles recomeçam.

Vejo uma curiosa atualização do Surrealismo, por exemplo, via Cortázar, na mescla do cotidiano, do urbano, com o insólito e com o fantástico. Remete ao verso de Lautréamont sobre o encontro de uma máquina de costura e de um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecação, referido também em O jogo da amarelinha, de Cortázar. Como se o fluxo maquínico das pessoas pela cidade pudesse, ao acaso, irromper em criatividade, em possibilidade.

O círculo (II): Uma história nunca está completa ou finalizada, assim como a literatura sempre se apresenta como um espaço de trocas e retomadas, em uma circularidade criativa. A escritura de Bettega está carregada dessa consciência, que se manifesta, por exemplo, quando o narrador do conto “A próxima linha” apresenta as reflexões de André:

Talvez aí sim, um instantes antes do final, ele viesse a compreender que isso tudo já estava escrito, num outro tempo, como se este agora fosse mesmo uma continuação, como se fosse um reinício. (2004, p. 26)

Os livros de Bettega, principalmente Os lados do círculo, formam um intricado sistema de possibilidades e leituras. São contos inteligentes, interligados entre si, testemunho de uma escritura que está sempre assim, oscilando entre o acaso e a deliberação.

Referências

Os lados do círculo (Companhia das Letras, 2004) e O vôo da trapezista (Movimento, 1994), de Amilcar Bettega Barbosa.
Ficções (Globo, 1982), de Jorge Luis Borges.

Kelvin K. nasceu no dia 10 de dezembro de 1984, em Ladário. Formado em Publicidade pela Escola de Comunicação e Artes do Rio de Janeiro,  atualmente cursa Mestrado em Literatura Comparada na Universidade  Federal do Rio Grande do Sul. Em 2005, lançou a novela O último dia, pela Editora Bipolar. Mora no centro de Porto Alegre.

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