Poema místico e outros


A+  A-  C  F   P

Felipe Stefani

Poema místico

Repentino,
Na clareira vulcânica da idade,
Concebi assim a leitura da memória;
De que tudo que desata, cresce e morre
Tem um gesto,
Um gesto de princípio.

Deveríamos chamar “ritmo”
Tudo que nos torna exaltados.

Somos tentados a ver dentro do sonho,
Assim nos recriamos do que nos causa escândalo,
Nomeamos a noite, a tarde e a manhã dos tempos,
Como fôssemos deuses.

Somos ritmo do sonho,
Lembrando, vagando,
No fim de cada era,
Causando escândalo.

Vede as estrelas,
Os frutos das figueiras,
O templo,
Furiosamente serão lembrados.
Viveremos disso,
Dando ao mundo
Um nome de batismo.

Chamaremos “inspiração”
Tudo que concentra,
Avança e se enraíza.

Impérios definham.
Somos tentados a dizer que foi um sonho,
Um sonho dentro do sonho,
Se concebêssemos tal geometria.

Pois também se lavram as terras antigas.
Vede, as águas calmas
São também colhidas.

O sonho não é sonho,
A memória não é memória.

Há sempre um Deus a redizer a história.

Sem título

Não te deites com a volúpia presa aos dentes,
se pretendes despertar os lobos.

Madrugada,
o uivo sonda teus ossos.

Alquimia não consiste em acalentar o orgulho.
Os lobos sabem farejar as sombras,
violetas e asteróides,
não envolvem teus mundos.

Sutileza,
presa acidentada dos cálculos,
a cidade tem uma cegueira acelerada,
os lobos avançam,
teu quarto tem extremidades impossíveis.

A volúpia brota de ossos cegos,
onde a vida, com seus lábios violetas,
não penetra.

Tu, cadáver de si mesma,
volúpia acidentada,
não penetre a alquimia com asteróides cegos.
Os lobos te envolvem, no lado mais sutil do orgulho.

Madrugada
tem acordes turvos.
Deitas-te a cama,
o edifício encravado na cidade
não supõe teus lobos extremos.

Com volúpia, não calcule a cegueira,
sem supor seus uivos.

Brotam nas sombras,
brotam nas ruas,
em espaços turvos,
no sorriso das cifras.
Avançam a madrugada em que te deitas
cadavérica,
farejam e ao farejar te despertam,

tão inesperada como um asteróide.

Sem título

Esses óculos, meu filho,
Não me fazem ver o infinito.
Esses aros cansados, estão presos ao mundo,
Presos à face.
Sou como um século envelhecido, meu filho,
Circundado por ruas soturnas.
Fora-se o dia.
Com esses óculos,
Tive perdida a verdadeira estrada,
Quando partires rumo a sua origem,
Leva meus olhos,
Que são os olhos matinais do seu princípio.
Cordas, arcos, liras,
Ressoam ao som dos mortos e dos vivos.
Jovens aos beijos, romarias sem fé,
Fartas canções tenebrosas.
“Por mim se vai ao padecer das eras”,
diz a harpa rouca das trevas.
Sou um velho século cansado,
Nessa cidade irrespirável.
Se partires rumo a tua origem,
Velhas escrituras deves navegar,
Para que partas dentro de si mesmo,
No abismo do seu nome de regresso.

Meus óculos de tédio,
Me fazem ausente, quase incorpóreo,
Em meio da vida.
Praças, alamedas, galerias,
Violinos noturnos,
Bares imundos,
Lares fechados.
Esses aros cansados, estão presos ao mundo,
Presos à face.
Meus olhos são a lira do seu princípio, meu filho.
Tive perdida a verdadeira estrada.

Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem poucas palavras sobre si mesmo, mas variadas formas de expressão. Já fez de tudo, até biologia, porém foi na arte que encontrou meios de se relacionar com o mundo. Faz parte do grupo “Só Desenho”, que tem os desenhos publicados neste site. Ilustrou o livro “Teatro das Horas” do poeta André Setti, editado pela Edições K. Tem poemas e desenhos publicados no site Meio Tom, Revista Zunái e Cronópios. Escreve também em seu blog. Prefere que sua arte fale por si mesma.

A+  A-  C  F   P   T




Comente





Antes de comentar, leia atentamente as regras de uso do site.

Fechar
Envie por e-mail