Para escrever, Ponderar & A face interna


A+  A-  C  F   P

Walter Ramos

Para escrever

(ou O imperativo da escrita)

Elege um tempo a visitar formas passadas.
Resiste um pouco. Logo — comportas-cheias —
vem à veia pulsada a poesia viva.
Dela tirarás a prima seiva.
Segreda um canto na memória,
exalta o agora como quem passa sem jamais;
Na bagagem o necessário,
com tudo que se possa dispensar no caminho.
Vale elencar o não dito. O velado.
É prudente não se perder no entremeio.
Cumprimenta tudo que existe e é nominado;
é destas coisas que sobrevivem os idiomas.
Saber o que os sábios discutiam:
(que a vida é vagido e descanso, júbilo e cansaço)
mas não assim, isto simplesmente.
Ter aquilo do atirador de facas —,
a cabeça preocupada com cada punhal alçado,
cada seta emitida rumo à roda viva é válido.
Enfeita os rumos com cada passo.
Muitas vezes estarás somente.
Nem sempre acompanhado,
nem sempre sozinho.
Equilíbrio é em geral a queda retardada.
Atenção ao andar no sentido que se quer,
quando na contra-mão, por fora da estrada.
Lembra do ferreiro ao malhar o aço
no calor das limalhas bruscas da metalurgia.
Imita solenemente o toureiro no meio da jornada
na dança pensada e tensa da tauromaquia.
Aceita o pouco como bocado. A ‘fartura apenas’
é a certeza certa de ‘dejetos-excedentes’.
Furta sempre ao silêncio razoável
ante as gralhas que nada dizem;
e atenta serenamente para quando calam.
Aporta sempre que-sim no leito dos regatos perenes
(dali brotam as águas mais sinceras).
E a poesia precisa daquilo mesmo;
que se espalha nas vias urbanas das gentes
ou entre as alamedas mais dispersas.
Aceita: a poesia é um estado exclusivo dos meninos.
Digo: da meninice das crianças, mais precisamente.
E este estado de infante é difícil. Dá trabalho.
Raramente vinga quando em adulto se cresce.
Não flui assim em todos, gratuitamente.
Elege um tempo a visitar temas passados.
É possível que já se tenha dito tudo sobre o orbe.
Mas — se tens ritmo e cadência plena
conduzindo febre em verve fluente,
aguarda um pouco. Põe as cangas,
mãos na crina do poema…
Senta à mesa:

E escreve!

Ponderar

Quando a vereda, de estreita, encurta as certezas,
e o caminho possível se trava na fila única interdita,
resta a difícil esteira da escolha entre as cercanias.
Na terra sonâmbula, os entulhos fumam…
O que fazer senão arriscar rotas inéditas?
Ainda há, por fim, aqueles caminhos…
— que consistem mais das vezes —
em podermos fazê-los de volta.

A face interna (o espelho)

Flama uma nesga de tempo.
Cabem nos pulmões insuflos.
Veste-se de intento o pulso;
e os cotovelos sobre a vida.

(A luz de uma lamparina
— ilumina a lassidão).

Atesto à minha devoção:
eis que masquei meus olhos
para não fugir do firmamento.

O maior dos meus tormentos,
minha treva, minha língua,
jaz. Condenou meu coração.

Levo à minha última hora
esta harpia, aço nas esporas.
Minha sombra, meu inferno.

Meu chamado ao deletério;
Martírio que lacera, devora.
Insulta, avilta: desde os rins
à bílis. “Nigredo” ao fígado…
Eita! Vocação maldita!

Walter Ramos de Arruda (1976) nasceu em Recife. Tem formação em Letras e antropologia. Poeta e roteirista, está a preparar um livro de poemas. Vive escrevendo.

A+  A-  C  F   P   T


1 comentário  


  1. Não há o que falar… Ponderar é ótimo!
    Aguardo o livro de Poemas anciosa.
    Grande profissional.

    Deise Daiane - 21/05/08


Comente





Antes de comentar, leia atentamente as regras de uso do site.

Fechar
Envie por e-mail