A fábula de Fabergé e outros poemas
Emmanuel Santiago
A fábula de Fabergé
Se Olavo Bilac procura
a palavra polida feito
a pérola (escafandrista
pescador de esmeraldas
na espuma das estrelas)
é para depois prepará-la
dissipando as impurezas
da prosódia, de modo que
a melodia soe cintilante
em ouvidos de ourives.
Mas ao compara-se ao
ourives, talvez pensasse
nas engrenagens de um Fabergé
onde o sublime se processa
preciso e precioso, pois
enquanto outros ourives
se ocupavam com ouro,
prata e coisas opacas,
Fabergé fabricava
a aurora boreal.
…
Soneto caixa de música
A bela bailarina perolada
que dança delicada na neblina
salta sobre a calçada e desatina;
num só gesto, ilumina a madrugada.
Nas trevas entreabertas de uma esquina,
cria asas cristalinas, uma fada,
a leve bailarina alienada
na luz calcificada da retina.
Num flexível floreio, ela flutua
sobre as pedras da rua e do passeio,
e tira o sono alheio: fica nua.
Luz volátil, a lua de entremeio
desfaz-se em devaneios, desvirtua…
A bailarina nua mostra os seios.
…
Difícil ofício
Recolher o eco
do oco das coisas
onde reverbero o
abismo, encontrar
a palavra nevrálgica,
esfolar a palavra,
a palavra
escalavrada.
Reverter o verso
ao seu núcleo ocluso e
nebuloso, onde o vocabulário
coagula dissecado
de sintaxe; quero o verso
reduzido à fibra,
abstrato e
intratável.
Destilar
o silêncio deste
canto, silêncio
que se dissolve no vazio
do ouvido, na porosa
superfície da palavra, o
…
silêncio, …
(silêncio)
Emmanuel Santiago nasceu em 13 de abril de 1984 na cidade São Lourenço, sul de Minas Gerais. Formado em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto, atualmente reside na cidade de Jacareí-SP e cursa o programa de mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. Escreve em seu blog.





Maravilhosos Poemas !
Tem uma magia especial !
Beijos doce!