Busca e outros poemas


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Walter Ramos

Busca

Amanheceste, sol-a-pino, ante a Vulgata,
lavraste no vão das costelas, alma e alento,
com um canto oculto sob o nó da garganta
mudo, pensante, tal cantar no intento.
Numa mão, certa caneta vestida de prata
a ouvir muitos silvos que imitam o vento.
Sagrações vindas de uma imaginária mata
que gotejam, vivas, dentro do pensamento.
E na outra mão, a têmpora canhota e agreste.
Atento ao cantar extinto de antigos bardos,
alcanças a treva profunda e a esfera Celeste,
desde um prado fosco de cantares pardos,
debruçado sobre O Livro-mor da literatura,
buscas o ritmo que o salmista-santo entoara.

De_Cadenciar

Fita vivamente a luz que imita o alabastro.
Viste pontos de fuga na fugacidade noturna;
entrelugares, risos em coro, divas de bronze,
pernoitadas nos lupanares — mobílias ocultas.
Urge a dor galopante a devorar as deidades.

Um quarto de tuas noites reservas à loucura;
na loja medíocre, confrades da mendacidade
sorvem torpores, vertem blasfêmia e espuma.
Carcaças vis morfadas em estátuas de Crack;
vagueiam cães no entorno das mesas chulas

mendigam as migalhas, habitam em angústia.
Saíste à tarde, não avisaste quanto à demora:
apearias a aurora, no bairro da Vista Obscura.
Fabularias sobre arte, morte; o mito de Marte.
& amanhecerias insone,
numa roda de putas.

Prece matutina

Luz do mundo; Sal da Terra. Filho de Davi.
Rasga minha alma com o anzol de tua pesca.
Impõe ao peito da carcaça desta mera pecha;
Genuflexa conduta. Força a correção devida.
Controla o rompante irascível da besta ferina.
A bílis ativa. Mais oculta lava cativa. O súbito.
O estrondo diuturno que quando surta impera.
Este leviatã que de cansado dorme em vencido,
num chão de tristeza barroca e trama em sonho
novas lutas que ainda não vieram. Doma a fera
ofensiva. Convence em tempo este pobre diabo
sedento. Usa correntes. Trava todos os dentes
deste gênio explosivo, desta criatura:

Meu temperamento.

Walter Ramos de Arruda (1976) nasceu em Recife. Tem formação em Letras e antropologia. Poeta e roteirista, está a preparar um livro de poemas. Vive escrevendo.

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2 comentários  


  1. Este filho de um Céu pródigo em arte e versos derrama seu pulsar de arte no seio da Terra, que sedenta de sentidos regozija-se em poesia.

    Thânia Sucupira - 19/03/08
  2. Poemas muito fortes!!! Dignos de um grande poeta. Um dos maiores que Pernambuco já nos deu. Sinceramente parabéns.

    Isa Guerra - 09/04/08


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