Chá para as borboletas e outros poemas


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Bárbara Lia

Chá para as borboletas

Janela — espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.

Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.

Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.

Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto

onde eu servia chá às borboletas.

***

Desdêmona

Olhou-me como nuvem
a sugar os vapores
da minha alma.
Por que ele é meu deus
guardei-o em um lago
onde Iago
jamais chegará.

***

Flora

 

“Grão, o amor da gente é como um grão”
Gilberto Gil

 

grão
grão
grão
a cantar
as horas

 

gota
gota
gota
a cantar
a chuva

 

folha
folha
folha
a cantar
o outono
bem-te-vi
bem-te-vi
bem-te-vi
a cantar
novo dia

 

lâmina
lâmina
lâmina
a cantar
o amor.
(Amar é ferir-se
em
lâminas
sollasidoremifa)

Os poemas são do livro A última chuva (ME - Ed. Alternativas - 2007)

Bárbara Lia é professora de História e escritora. Teve poemas publicados por várias revistas literárias. Foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura 200 com o romance Cereja & Blues (inédito), e 2005 com o romance Solidão calcinada (inédito). Livros publicados: O sorriso de Leonardo (Kafka Editora - 2004), Noir (Ed. do Autor – 2006), O sal das rosas (Lumme Editor - 2007) e A última chuva (ME - 2007).

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1 comentário  


  1. Poemas de vidro, que projectam o seu interior. A dição desta poeta é de economia, porque tudo o que é belo é simples, senão a beleza tona-se terrível. Gostei de ler.



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