Poema doméstico e outros poemas
Ygor Moretti Fiorante
Poema doméstico
O frio que vem pela janela da sala
contrapõe-se com o despertar de misterioso e
imprevisto bem estar.
São os barulhos da janela,
e as contas atrasadas o anúncio da morte caseira,
pronta com temperos da cozinha,
morte que interrompe as conversas de janelas e
a alternância de canais na televisão.
Devo tomar a rua, alcançar as praças,
sentar-me aos bancos.
Som baixo, jornais envelhecendo no banheiro,
o caviar apodrece no refrigerador,
espera por outras ocasiões de consumo,
intransponível…
À luz da garagem acesa, a casa dorme…
Porcelana, louça, dinheiro,
as chaves em locais fáceis,
pintava-se assim com o brilhar dos cristais no armário
a hipocrisia burguesa de um anoitecer em família.
Porém, não se sabiam os burgueses dos burgos e das revoluções,
a enorme televisão ou os vinhos envelhecidos denotavam a história…
…
A insatisfação da forma
A Filosofia do grito,
cabeças e braços,
o dorso do cavalo malhado,
o torso escuro na sombra.
O grito silencioso, contínuo
o movimento em desespero, estático.
Fêmur, porrete janela lamparina,
a tentativa de imprimir o grito na história.
Ferradura castidade,
os seres atingem um nível de existência,
de existência somente.
Persistência da garganta, do som do corpo rojo.
A bidimensionalidade das casas,
a construção de arestas por corpos mutilados,
a criança morta, a cabeça que ainda respira,
qualquer coisa respira,
pedra touro sono vento.
Expressões de mármore, a dança das cores
mas a dubiedade do escuro não esquece um seio ou uma flor…
…
O poema das canáceas
Um tanto cansado de físicas,
a linguagem de marceneiros,
de quem mexe com cimento,
faz o cálculo do amor, a trigonometria das paixões,
e subtrai por testosterona.
O mundo físico e nada mais,
o mundo-tato,
mundo centímetro e centésimo.
O milímetro entre cada palavra,
leitura entre seda.
A fibra que sede a água,
mar acidental sobre livros,
mas não há o acidente,
há o destino da traça,
e a morte na alvenaria.
A composição dos elementos,
e a substância elementar dos móveis,
transpiram um suor de poeira,
no canto da sala a subjetividade do abajur
observa-me, eu lendo…
Ygor Moretti Fiorante nasceu em São Paulo em 1980. Trabalha como Designer Gráfico. Formou-se em Letras pela FAAC. Foi editor e fundador do fanzine O Sobrevivente durante três anos, e do Letras News enquanto esteve na faculdade. Editor do Guia de Artes Plásticas do Portal Sobre Sites durante três anos. Publicou dois contos na antologia Brainstorm (ed. Andross). Escreve em seu blog




