A invenção de uma trajetória e outros poemas


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Guto Melo

A invenção de uma trajetória

Que nada ganhe um peso
Nesse jeito todo nosso de nordestinizar
O paraíso existe… eu estou vendo
O deserto franco e sereno
O Recife é a Penha
A lenha fogueira São João e Sebastião.

Que nada ganhe um peso
Nesse jeito todo nosso de carioquizar
De locomotiva e mar
Arrogante exuberância e chama
Alto, boa vista, copa e cabana
Hemetério de Inhaúma
Bota fogo para a casa ficar amarela.

Estamos na capital do país
Onde a grama é muita mesmo
Espaço e drama de não saber tê-lo
Quadras e quadras de ausência
De motivo para arrancar os cabelos
E aqui me invade a saudade
Das ancas das ladeiras
Do feitiço das esquinas
Dos despachos de álcool, fubá e barro
Nessa ilha cercada de geometria
Que divorcia o horizonte do mar
Que seca os lábios, racha a pele
E traz conforto para o estrangeiro.

Estrangeiro,
Esteja só e seguro
Para encontrar o seu norte
À flor da água
Na capital do país!

Ecos da terra

O solo maquinado às pencas
engole as mãos cascosas
em serras encaroçadas, planícies esgarçadas,
emurchecidas pela tirania cítrica
da ganância agrária, dos desastres climáticos.

São hectares de conflitos irrigados
por líquido avesso à própria substância
um furacão de gotas creditícias
a juros férteis
adubando o camponês com o campônio.

Planos cafeínos,
sem açúcar, sem um doce gesto rústico,
alimentando tratores de politiquice,
desnutrindo a humilde esperança
de reviver a terra seca como herdada.

Desde o pau-brasil, capitanias, sesmarias,
terras pombalinas, donatarias citadinas…

Diante de agressiva conjuntura,
resta levar fumo, plantar batatas
a cólica coivara — grito do órgão oco
que se entorpece com o enxofre
das sevícias exaustivas
no campo minado das batalhas.

Líquido

Alçar vôo,
ser pássaro coberto de lâminas
a cortar a imaginação em lotes
sem um leve parentesco com a maldade.
A nuca do horizonte sabe,
pede outro corte;
tenho asas de artesão
e precisão cirúrgica além-computadorizada
de pássaro etéreo-cortante
amante do sangue da imaginação.
As nuvens choram emocionadas,
a chuva que cai é um líquido novo
diferente de tudo o que já se bebeu
ou do que já se viu molhado.

Guto Melo, 33, é jornalista e escritor. Recentemente, foi selecionado no I Concurso Nacional de Poesia da FATEC (SP) e deve integrar antologia a ser publicada este ano. Participa de outras antologias, tem textos publicados em revistas eletrônicas e mantém um blog.

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