Fábula do peregrino e outros poemas
Felipe Stefani
Fábula do peregrino
Tinha as mãos fundamentais de um cantador,
junto as casas
e as figueiras ao redor,
só o vento cantava.
As idades do corpo,
velavam o sono.
Porque adormeces, velho cantador?
Dá-me o alaúde, tua harmonia,
tens o corpo atravessado pelo tempo,
as palavras dormem,
dormem as casas tocadas por figueiras,
veladas pelo dom do teu silêncio.
Jovem peregrino, a música sem som
nunca arrefece, não me entristece,
não conduzir a flauta ao silêncio,
o acorde mais raro não se escuta.
E os pássaros cantavam a idade do tempo,
velavam as figueiras.
Com a morte atravessada na voz, dizia:
tenho as mãos fundamentais das lavadeiras.
Peregrino,
a música sem tempo não se escuta,
se te lamentas, não tenho culpa.
Dormia atravessado por figueiras,
as casas velavam o silêncio,
os pássaros, ao redor, tocavam-lhe
as mãos fundamentais.
Cantador, de mãos atadas ao silêncio,
que fazes com essa morte
entrelaçada em teu tempo?
Eu cantava,
sem conter as estações,
quão mais silente, mais vastas as louvações.
(tinha a voz fundamental dos pássaros)
Disse: eu cantava, a idade das figueiras
atravessou minha morte. Era cantador,
hoje cantam minha sorte.
…
Sem título
Eu vi o escasso tempo de malabarismos juvenis
A estalar a seiva acidentada da tarde,
A aurora pura entrelaçada ao meu próprio sono
Nos instantes precários de um segredo vago.
Na oblíqua solidez dos corpos,
Abre-se a rosa inicial sem nome, turva e casta,
Impura como a brisa imaculada dos sonhos, da voz,
Em uma espécie de chamado.
Eu vi o estrondo de uma gloriosa infância,
A alegria que em mim eram crianças cintilantes,
Na tarde volúvel, onde o mar, em silêncio maior,
Faz dos corpos uma presença errante.
Devo amar calado o triunfo crepuscular da juventude,
Seus beijos ao mar e sua oferenda de mistérios,
Na rosa oblíqua de um chamado puro,
Na vastidão precária dos instantes.
Eu vi tudo isso e amei, sendo eu mesmo uma oferenda eclusa
Aos mistérios juvenis, que desafiam os segredos do mar.
…
Sem título
Quantas vezes vi a loucura me percorrer cegamente as entranhas?
Lavrando do fundo de um corpo sua flor brutal
Libertando
A dança desregrada que atravessa a voz
Recompondo
Na noite o ouro intenso onde a Lua faz ressaca.
Estou completo em minhas paisagens.
De uma vida inteira absorvo a marcha
Canto as estações abertamente
Tocando com o esquecimento as margens
Que se distanciam
E evocam
Toda pureza de uma arte.
Quantas vezes essa loucura corrompeu o último enlace
Do medo que se abre ao fim de cada feixe de encanto
No alimento obscuro
Colhido do apuro
Das visões imensas?
Toda obra é terrível e sangra
Na memória a sua imagem.
No auge insondável desse estrondo
Canto
Em volta de uma dor
O dorso se contorce
No centro
Multiplicando o gesto
Um eco indefinido devora em travessia
Centenas de mundos construídos
E sonhados.
Pois a música se apossa da ébria lentidão do meu engano.
Felipe Stefani é poeta, artista plástico e fotógrafo. Nasceu em São Paulo em 1975. Tem poucas palavras sobre si mesmo, mas variadas formas de expressão. Já fez de tudo, até biologia, porém foi na arte que encontrou meios de se relacionar com o mundo. Faz parte do grupo “Só Desenho”, que tem os desenhos publicados neste site. Ilustrou o livro “Teatro das Horas” do poeta André Setti, editado pela Edições K. Tem poemas e desenhos publicados no site Meio Tom, Revista Zunái e Cronópios. Escreve também em seu blog. Prefere que sua arte fale por si mesma.




