Ponto de fuga e outros poemas


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Emmanuel Santiago

Ponto de fuga

O labirinto se elabora
na aérea aritmética
do arabesco, filigranas
de caligrafia fluida,

vertigens de virtuose
na volúpia das volutas
se evolando em espirais,

onde o olhar se desvirtua
arrebatado em plena queda
ascendendo às alturas:
abismo ou o avesso?

Dueto com João Cabral

A concretude do cantar
se comprova na procura
da palavra-coisa,

na concisão da coisa em si
que se resume a seu resumo,
a seu sintético sumo.

A língua lima o canto
áspera e à espera do que é bruto.
Que o verso reste sempre sóbrio
se despojando do que nele
seja luxo ou nulo, oco
por dentro e por fora.

Por isso escuto atentamente
o canto escasso e dissecado
e conto os pés desse compasso:
são oito pés descalços, de aço.

Excesso de ascese e assepsia.

As texturas do verde

Observe essa pêra
sobre a mesa, observe
sua casca transparente
(invólucro cristalino)
e a polpa descarnada,
sem espessura,

onde a mordida
resvala no vazio de um verde
oco, cor sem coisa: simulacro.

Um verde diverso
do verde venoso do rio
que corta a minha aldeia,
o Rio Verde, de um verde
que se alimenta na lenta
voragem do limo.

Não o destilado verde
marinho, relâmpago
numa esmeralda, mas
o verde opaco de um verde
quase marrom, verde sem viço
e vazio de cor: verde vácuo.

Verde que te quero verdes, vários.

Emmanuel Santiago nasceu em 13 de abril de 1984 na cidade São Lourenço, sul de Minas Gerais. Formado em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto, atualmente reside na cidade de Jacareí-SP e cursa o programa de mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. Escreve em seu blog.

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