Do desejo acorrentado e outros poemas
Diego Barreto Ivo
Do desejo acorrentado
Refugio-me em pensamentos
sórdidos, e a aurora, se expondo
sem pudor e distante, no abandono
da noite, evidencia Desalento,
postos sua astúcia maligna
de desiludir e seu escárnio
indecente ao pressentir a continuidade
do curso; entre um cigarro
e outro, fumaça e neblina, frio
e a brasa à ponta, que ilumina
e se reduz — o Sol
orgulhoso vem tomando (banhando)
para si as formas arquitetônicas
naturais e as assim construídas,
mas estanca no relevo de mim
mais próximo, em plano; e reflete,
e desaba,
inundando os arredores, relevando
a mim um círculo
boréu, feito perdoar-se a triste condição,
e basta-me a Noite para viver.
* * *
O martírio de sórdidos
desejos: este céu pesado
em seu tom de anil que quase
já surge, em que pássaros
matutinos, num exílio, dançam
o ritual da cópula com o dia
e me escorraçam, pois
a Luz contaminei
com as Trevas,
mal sabendo os vingantes
que este de lua alumiado em náusea
eterna é um Prometeu
cuja sina é pairar no Vácuo
Inicial do mundo, devido
à tola blasfêmia de Supor,
embora não o cogitasse
(estava bêbado, respirava
sufocando-se); agora irrevogável,
pretensão tornou-se punição,
e dói-me o fígado pelo que não
refletirei.
…
Do falsário irreconhecível da pintura
Há um arbitrário implícito
nestas ruas estúpidas:
o de que devemos prosseguir;
Dissolver-me nessa vereda
é extasiar-se sem alento:
me aproximo e te repulso;
Feito união com distinção:
como um pintor que, deslizando
tinta a esmo, não cedesse a um impulso.
Há, sim, Temor, já que caminhamos.
Continuamos, como se me propusesse
expectativas, e no entanto há morte:
és iminente!; Deus, inacessível, turvo…
E há tantos sentidos cogitáveis para
o depois, inclusive apenas acaso.
Mas o hipotético amortece o pensamento,
amorfa-o contudo; vejo-te, na lacuna, rua
nua, e o desvario se misturando à pintura.
…
A expectativa de um homem só
Escuto os passos de um soldado
saídos do contato forte e difícil
de seus coturnos sobre a calçada
como se exalasse o impasse de uma batalha
em breve, e isso o tornasse inseguro
e soturno, lá dentro, e exausto
no seu olhar rígido e altivo, exprimindo
contra o chão o luto de ter de continuar.
Ele seguia decidido em resolver a intriga
a que sempre se arranjavam motivos para
nunca aniquilar — E, num ímpeto
de coincidência, o vento frio avalia
o peso e a angústia daqueles rumos tortuosos
para mim e dão ao transeunte a liberdade
de não optar pela perfeição do Amor
que se jurou sob a égide da felicidade.
O vento, então, rasga tal sina de sobrevivência
imediata, com o adorável pretexto
de lhe impôr um ar fresco e límpido
que lhe açoita os cabelos e até propõe um riso
súbito, que se acata, apesar dos subterfúgios
cotidianos de que os tempos iniciais ainda voltarão…
“Oh, não perguntes do que se trata;
continuamos a viver, apenas isso!
Seguimos na possibilidade mesma da nostalgia
realizar-se presentemente, porém verificamos
que a vida é inócua,
embora Deus nos houvesse ofertado tudo o que pedíamos.
Mas nós já nos esquecemos das expectativas,
suspendendo-as. E, a fúria, não há como explicá-la;
deixa por favor soar o vento.”
E, num lance repentino, transubstancia-se a cena,
minha perspectiva gira e eu surjo!
infalível e majestoso. E, apesar
dos meus olhos que derrubam gigantes,
tamanha sua dinâmica implacável de tormento!,
como se olhassem Medusa e se consolidassem
estátuas pálidas a engolir seco o medo!
(não, nenhum mais há de ser o David de Miguel Ângelo),
demonstro minha compaixão! descendo a mão ágil
que estava à altura de qualquer órbita inimiga!,
e a ofereço benéfica à minha criatura! qual um deus
em minha astuta façanha de apacientar e desiludir.
Numa chuva torrencial que há de levar a arrogância
lavando o espírito ínfimo em tão grande infortúnio,
pervertendo a sorte de meus terríveis dias,
eu me reencontro comigo e prossigo fatigado,
a saber de que os passos ainda me corroerão, através
da linha reta.
Diego Barreto Ivo, natural de Salvador-BA, já morou em várias cidades do sul de Minas. Iniciou o curso de Letras na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), em Mariana, onde cursou apenas um período. É graduando em Letras pela USP e poeta. Prepara-se para seu primeiro livro de poemas. Escreve em seu blog, que faz parte do coletivo Breviário.




