Reaprender e outros poemas


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Sidnei Pimentel

Reaprender

Ah, como tenho te amado, criança!
Esqueço-me do tempo a olhar pra você.
Vivi a vontade que tenho de beijar-te
E durmo ao seu lado, tranqüilo, em paz.
Mas este mesmo tremor que me faz ser você
É capaz de consumir-nos, eu sei disso.
Pode ser realmente o que quero e preciso,
Mas também é a dor que eu quero evitar.
Assim, toda a força que tenho para amar,
Preciso usar para me encontrar.
Hoje perco a razão, idéias, emoções;
Quero voltar a enxergar com meus olhos.
Espero ser tudo o que já fui novamente,
Gostando das coisas que antes gostava,
Sentindo os cheiros que costumava sentir,
Não mais confundir os nossos sentidos.
Acho que aprendi a me apaixonar.
Compreendi que não existe uma fusão,
A união que eu sempre imaginei
É impossível, irreal e destrutiva.
Descobri o significado da palavra comunhão
E agora amo, ao mesmo tempo em que vivo.
Sou eu, e meu amor me suplementa,
Satisfaz, não mais encarcera.

(31-03-1990)

***

Amor e fime (I)

(1991 – para minha primeira paixão arrebatadora)

Desde que a vi pela primeira vez
Notei as coisas se tornarem diferentes.
Todas as vezes que fechava os olhos
vinha-me à mente um sorriso bonito –
a boca vermelha do amor;
os dentes brancos do amor;
a língua rósea do amor.
À medida que a conhecia
A boca mudava de expressão.
A alegria parecia dar lugar
À malícia, à sensualidade.
Os lábios se entreabriam
Esperançosos
Desejosos
Ansiosos.
E a língua os roçava
Num gesto atrevido.
Agora, estou à sua mercê:
A boca do amor,
Sedenta,
Faminta,
Insaciável,
Engoliu-me para sempre.

***

Inosotosias do mundo

Que acontece
Se o misógino
Vira andrógino
E todos os “inos”
Viram meninos
Que tocam sinos
Nas catedrais?
Que acontece
Se o ar do porto
Vira esgoto
E todos os “otos”
Viram abortos
E natimortos
Que acusam outros
E não seus pais?
Que acontece
Se a cotovia
Vira Maria
E todas as “ias”
Viram vadias
Que fazem dos dias
Apenas minutos, nada mais?
Que acontece com os
Meninos de ossinhos finos
Que tocam sinos
Nas catedrais?
São só meninos
Pobres, franzinos,
Cujos destinos
Negaram-lhes mais.
Que acontece com os
Abortos e natimortos
Que acusam outros
E não seus pais?
Não são uns poucos
Frutos dos loucos
Que governam soltos,
Poluem, poluem e pedem paz.
Que acontece com as
Vadias de crenças pias
Que fazem dos dias
Apenas minutos, nada mais?
Essas são as frias
Que não sabem da valia
De uma vida vazia
Sem rumo, sem cais.

Sidnei Pimentel, baiano de 35 anos que mora em São Paulo há 11 e já se considera um “sotero-paulistano”, médico infectologista, apaixonado pelo que faz. Na adolescência, sofreu de rompantes agudos de romantismo e inquietação política, manifestados através de pequena quantidade de poesia amadora, mas definitivamente aliviante. Há anos longe de escrever poesia, nos últimos 2 anos tem se dedicado ao seu blog, através do qual tem tido a alegria de fazer grandes e importantes amigos.

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