Caminho de Damasco


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João Filho

I
Só com a força dos músculos não
se pode tocar uma flor; aceitar
a oferta com a dura entrega
do ser ou renegar e perder-se
em desrumos infindos de passos
sobre a montanha? Senta-se sob a
sombra, seco de inquirir; aos pés a
sutileza sonora de córrego
descendo, a certeza solar filtrada
pela folhagem das altas copas
amorna o úmido entorno; escuta
o que encontrado foi o primeiro
acatamento; brisa na ramagem
e na penugem da nuca; cheiro
verde-primevo do que aqui se
exprime; bebe do cristal desse
córrego, dos reflexos de prata
das tilápias em sua estada
líquida; colibris e corolas
na manhã que vai ao meio de
efêmero se nutrem. Levanta-
se e sobe. O árduo ato de subir o

II
faz descer dentro de si (fosso sem
fim, feito nave pelo cosmo — presa
no seu limite infinito — à
procura de um ponto que seja seu
porto), e a angústia desgastante vai
se dissipando à medida que
avança com vagaroso rigor
sobre a aspereza calcária da
senda que acima serpeia, mas
a inquietação permanece mesmo
com a sonhada integração a se
formular entre as pernas que escalam
e o ser que profundas escadarias
desce; o grão de angústia que se gasta;
o pensar o sol com a sua luz
e as suas leis, que tanto queima como
aquece; o silencioso momento
de rocha e arbusto no ciclo
simétrico das criaturas, que em
ritmo se deslocam em forma de
asa, rastejo, preciso andante
e verme. Desvia-se para uma gruta
e na escuridão se engolfa: o
suor que o encharca, o vibrar viril do
corpo, que cansado suporta e
segue, mas, ai!, o tropeço é típico
dos que ousam, e ao precipitar-se
procura margem no espaço cego,
encontra escoriações; caído,
não é só na carne o ardor, pois a
solidão desértica é favorável
a ponderações: “saber mesmo sem
palavras, mesmo que só escuro
for sua casa, ou nem casa; mesmo
que o lampejo da Única Indiferença
não passe de uma esmola-dádiva;
saber mais ainda — com a crueza
que se agrava. O que é não-ser? Até
para não-ser, saber. Saber mesmo
antes do humano; antes do primeiro
espaço preenchido; antes da
seiva e do sangue inicial de todo
nascido”. Não sabe se gritou ou
se lhe foi dito. Arranca-se num
ímpeto intuitivo, e trôpego
fareja a luz como um jovem anjo
em desobediência, sai ao sol e por
segundos cega-se. Ruma para

III
o topo com o suor a salgar
os cortes, passo a passo esta
auto-evidência sacode-o: a
vida não é uma falha; precária
porque provisória, é certo, mas
estática num ápice é um ricto
de horror, êxtase interminável,
cidadelas aéreas, lua estatelada
desprovida de fulgor, fonte de
fracassos onde ilusionamos
molharmos nossa sede; contudo,
próximo ao cimo vento nenhum
suas feridas arrefece, agora
apenas físicas; chega e num giro
completo, contempla — que abarcar
não abarca, e ao reduzir, se reduz —
o dia no zênite vaza nuvens
sobre o azul-violáceo das serras
ao sul, que se debuxam com os
maduros trigais, se esfumam
com os campos carbonizados, e
se confundem com a mata ao
pé da montanha-metáfora onde
se acha, com a fome a mexer na
mochila, com o saciável à mão
e o mar além em sua fugidiça
figura, mas, de na distância
percebê-lo, intra-mergulha:
genuflexo, cabeça pensa, reza
à Musa: que o canto não se
encarcera, pássaro intangível
em espiral atravessando-o,
dá-se a luta, se plasma em
página, logos que não o abate,
adentra o telúrico e se entranha
novamente no Mistério; e ele,
ainda em reverência, embora
esvaziado, vê um arco que parte
do seu crânio ao céu e se declina
com o dia, anoitece; vai adormecendo
enquanto a treva o envolve. Pesadelos
o madrugam, desperta em medo

IV
no minuto indeciso onde o contorno
das coisas se perdem e o mundo
é um todo indistinto; na semi-treva,
ser e aurora se imiscuem; grave e
suave instante como um adágio-
cello que o tempo soprasse, mas
o sopro é poeira que o corpo
recorda seu sujo e sede e cansaço;
o sol a subir o destaca da
indistinção, e ele do alto começa
a descer, com a memória do seu
caminho a retroceder: (muda o feito,
mas não se apaga; os gestos
antigos que nos amolecem,
ternura do que dói, verruma manual
na tábua-peito, olor doloroso que
não é mais que isso, se reconstrói
das miudezas do minuto para a
singularidade dos séculos; a
enormidade alucinante de ser
apenas um perfume que se perde,
mas, pedagógico, nos ensina a
sumir. Então o clarão no tempo
é o instante estéril que é vão
por que é vão por que é vão?
Brevidade que conduz ao
fragmento desesperado de durar),
e deságua neste poema de
perspectivas; acaso é invalidada
pena de amarga fatura? Sabe
que o corpo acaba e a letra é
triste, mas o que se consumiu
é a canção das cinzas, antes da
chama, antes ainda o intrínseco
de existi-la, a que de frieza
é feita para melhor cintilar
enquanto agoniza, seu fim onde
se fia e que se faz enquanto foge.

V
No pé da montanha pára, suspira,
o fastio de tentar quase o desequilibra;
é perdido, pensa, o sentido que não
se elucida? É nulo o labirinto em que
se contorcem as serpentes do ser?
Interroga e prossegue, pois
prosseguir é a sina; o corpo pede
cuidados: colhe o frescor da polpa
quase obscena de tão viva, o
clima vira, e um urubu sob nublado
(escura Musa?) num lento eixo
centrípeto sobre ele o educa; chove
grosso e não se abriga. Defronta-se
com a mata que se estende, e
penetra no reino escuro das
raízes, descalço prepara-se para
a disciplina da lama, que virgem
possui seu veludo, sola a sola
ele sente seus fluidos perigos, e
irmão da lama, resmunga: “sendo
corpo já é um erro, vaso que se
molda sempre torto, barro do
acaso que se solda em desespero
sem esperança de conforto; o seu
prazo gota a gota é a difícil
dança em seu imprescindível e
incontestável ritmo, se a vida
é terreno movediço…”, atola-se!
Em vão impreca sua inquietação
e impotência, as ventosas da lama
desejam e ele quase aceita voltar
a ser o sopro só sem substância;
afundando, vê a chuva cessar; a
noite cai e na celeste o Mistério
se constela, porém, rejeitado numa
cuspidela, é lançado para fora da
mata lamacenta e antes de apagar
balbucia: “Ó Mégara, minha
Mégara…”. Amanhece, a luz marinha
lava sua pele, o salitre do vento
anuncia a presença magnética do mar,
que o recebe e vitaliza como a
vida que não se contenta em sua
estranha vontade de sempre ser,
mesmo quando se nega e insana
quer, mas não se neutraliza; ele,
depois da cópula equórea, sexual
rosa saciada que parece repousar
(mas o mar não repousa), continua
através como quem não termina…

João Filho nasceu em Bom Jesus da Lapa, Bahia, em 1975. Atualmente mora em Salvador. Lançou, em 2004, o livro de contos Encarniçado (Ed. Baleia). É poeta e prosador e tem outros livros escritos, ainda inéditos. Ao lado de Állex Leilla, é dono do sebo Diadorim. Escreve no blog Hiperghetto.

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