Calor que comprime e outros poemas


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Gaivota

Calor que comprime

Uma frase dentro do calor.
Estufa! Calor que comprime.
E ainda a agonia que perpassa
a meu lado.
Estirada na inútil e branca pia
dorme a faca entre estrelas.
Surpreendo-me nessa fronteira…
Meu delírio jorra
no espaço de meu corpo.
Como contê-lo?
Impossível!
Há dias em que a
impossibilidade escreve
em minhas costas…
Há dias em que as possibilidades
me abraçam..
Chego a ter tonteiras
nesse vai e vem.
Sou uma onda
In cessante.

***

Escuta a conta gotas

Intenso sussurro
aperta borda do teclado
a procura do ritmo.
Histórias incontáveis,
dor de pensamentos,
ocupam espaço maior
que meus desejos.
Devorando silêncios
escuta a conta gotas
toda angústia que suspira em mim.
Onde estais criança de desejos?
Onde estais palavras de arpejos?
Onde toca a noite
in sônia mente?

***

Porque escrever é uma das melhores coisas da vida

Abro páginas brancas com
pensamentos negros..
Desliza o grafite rabiscando horas,
caminha leve e sorrateira a palavra.
Desmaio na dor do desejo
completado no ato.
Sou teu palavra, vestida na meia preta
espetando o salto no cérebro ensandescido.
Sou teu
na linha transcrita,
na necessidade absoluta
de abraçar teu corpo.
Sou teu na cama branca
e perfumada
do papel
borrado.
Sou teu.
Porque escrever é uma das melhores coisas da vida!
Neste parto sem fórceps
pois que sai escorrido como sêmen,
a criança já não chora..
Ela grita — Sim, sim, sim..
Ensangüentada,
azulada,
marcada,
apunhalada..
Nos dedos torpes
que amam
e beijam em sofreguidão.
Porque escrever é uma das melhores coisas da vida!
Porque escrever é romper cadeias..
É vomitar o lixo
entalado no coração..
É comer morangos na madrugada,
lambuzar dedos no creme de leite..
Esmagar cerejas escravizadas
entre dentes de cada mordida cruel.
E dizer — Amo-te!

Gaivota já foi artista plástico, atualmente é psicanalista e escritor. Tem oito livros com dois pseudônimos diferentes. Gosta de ser tratado principalmente por seu pseudônimo preferido: Gaivota. Possui um blog atualizado quase quinzenalmente. Descobriu o prazer de escrever a partir de janeiro de 2005. Por puro prazer autodenomina-se um pássaro, livre para existir.

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