Lembrança de antes do tempo, Desinstante e Natureza morta


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Fabrício Fortes

Lembrança de antes do tempo

Jorra o tempo pelas paredes
no lento pedalar
da máquina de costura.
Mãe,
quanto tempo falta
para a vida começar?

É triste o dia
e o picolezeiro,
as pitangas e a flor do maracujá.
Mulheres que bordam e tecem
e pintam panos-de-pratos.
São morangos
e não há homens por perto
durante o horário comercial.

Brincamos à sombra do cinamômo
e corrigimos a fala dos mais velhos.
Mãe,
quando virão todos aqueles cheiros
que me prometeste?

Ignoramos o tempo,
que já escorre pelo assoalho
(estamos atrasados).
As paredes transpiram e não se sabe
se é chuva ou tédio.

Mãe,
Deixa o relógio a velar-nos o sono
e me conta de novo
todas aquelas histórias.
Mãe, mãe,
me aperta contra o teu peito
e gira em torno do meu umbigo.
Me entrega um dos teus olhos
e deixa uma coberta nos pés da cama.

Por favor, mãe, por favor,
me diz que estaremos longe
quando as coisas passarem a fazer sentido.

Desinstante

Tic.
Passaram-se vidas inteiras
dentro daquele segundo.
Negros ponteiros acima
da velocidade da luz.
Cresceram todos os pêlos
(findaram esbranquiçados).
Correram todos os líquidos
e evaporaram.
Velaram-se os mortos;
secaram as flores;
nasceram os filhos
e, de repente:
Tac
(havíamos perdido a hora).

Natureza morta

Sob a sombra úmida e singela
descansa a laranja envergonhada.
Compõe a paisagem, madura madura.
É mera laranja, delira discreta.

Não há quase nada afora a laranja.
A relva do pátio, o som de crianças
e as flores vulgares coloridas
como putas flutuando nas calçadas.

Caiu a noite;
caiu do pé
feito uma estrela carnuda;
feito um pedaço da tarde.

Caiu amarela e já sem pudores;
imóvel agora, laranja coitada;
aguarda com calma que alguém a recolha
sem ao menos se dar ao luxo
de um último suspiro.

Calada calada.

Fabrício Fortes nasceu no interior gaúcho em 1979. Foi três vezes premiado no Concurso Literário Felippe D’Oliveira (Santa Maria – RS): 1° lugar na modalidade Crônica em 2005 com “Intervalo de Almoço”, menção honrosa na modalidade poesia em 2006 com “A Não-Palavra” e 2° lugar também na modalidade poesia em 2007 com “Desinstante”. Teve poemas publicados na antologia poética O labirinto de espelhos (Maringá: DeLeon, 2007). Administra o blog literário Notas sujas desde 2005, e é colaborador da revista Nova Águia (Portugal). Possui Graduação em Filosofia pela universidade Federal de Santa Maria, e atualmente é aluno do curso de Mestrado em filosofia da mesma instituição.

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1 comentário  


  1. “Lembrança de antes do tempo”…
    e eu que nem recordava dessa linha que agora sigo, pra aquele palácio labirinto, cheio de milagres de heróis e de catapultas gigantescas, donde me olhava lançado, indo, indo…. sem mais saber da pousos, repousos ou voltas…

    um abraço… poetaço!!!



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