Recifes e outros poemas
Ana Rüsche
Recifes
ao Delmo
Entre máquinas de fliper
sou putinha e muro velho
na cidade alta de altares e
na outra de caranguejos
do melaço fez-se o mangue
e de açúcar fez-se a praia
as palavras são verde-claras
e o verso vermelho-escuro
sobre a terra, o rio marrom
leito que se jorra todo
morde com seixos e lodo
na costa despudorada
das pradarias submersas
de açúcar negro e de barro
prenhe de água salobra
um oceano deságua águas
e demarca minha terra
***
Corte
tenho uma navalha no meio das pernas.
quer ver?
assim você poderá sentir melhor,
já que eu cegarei
esses seus dois olhos
que nunca serviram para nada.
***
Correspondências poéticas
a caixa de entrada — a rua augusta engana pela manhã
: com vendedores de água, velhas e papéis de parede,
mas há sempre bancos e guardas armados.
Pois venha lobo que somos todos matilha,
a língua no monitor por tuas cartas.
: cartas de luz azulada, de néon emboscado em
vitrines, escolha o sorriso — me lambuzo em falso
e sinto a quentura de presas em meu
cangote
por pelagem de carniças e pecados
de diabo velho.
— meu querido, me escreveram
que
estamos longe de sermos animais.
Ana Rüsche nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Advogada e estudante de Letras. Publicou livro de estréia Rasgada (2005), participou da antologia Oitavas, pelo Selo Demônio Negro (2006) e da antologia em espanhol e catalão Panamericana – Poetas nascidas após 1976, SérieAlfa, organizada por Joan Navarro. Mantém um site. Escreve diariamente no Peixe de Aquário.




