Enunciado e outros poemas


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Zingarah

Enunciado

Carrossel de significados,
captura vertiginosa do olhar.
Movimento-hipnose, ímã,
impiedoso sumidouro das vaidades.
O que atrai a ânsia do poeta,
o que lhe obriga a florescer?
São os relevos do silêncio,
e o mormaço do estirão dos dias.
A languidez dos amores em repouso,
e a perturbação oculta sob nossos pés.
E o todo freme, e com ele
oscilam as verdades absolutas.
Hesitam as mãos que desenham
as linhas dos nossos desejos.
Ebulições.
Fervedouro de segredos.
Alimento para nossas carências e
resposta para toda dúvida

***

Pronúncias

Teu nome soa tão bem em minha boca,
desce redondo pela minha garganta.
É doce, levemente ácido,
curiosamente espiralado.
Eu o respiro, envolto em ar ele tece
um fio de luz sobre minha língua.
E eu o repito,
sopro no vento,
suave pulsação em minha veias.
Meu nome soa tão bem em tua boca,
angulosa e selvagem,
marcada de muitos beijos.
Risonha e leve, dobrando-se na voz rouca,
com que me chamas.
E as palavras se enroscam,
arabescos de letras dentro de nós.
Pronúncias.

***

Aviso

Mantenha-se longe de mim.
De meu rosto, meus olhos e cabelos,
de todos os meus destemperos.
Fuja para mais além.
Sou cortante, áspera, desregulada,
insidiosa como as ervas do jardim.
Afaste-se, encubra o seu sorriso,
dê-me as costas antes do final.
Posso arranhar o verniz que o reveste,
manchar de vermelho seus instantes sem cor.
E arrastá-lo, quase morto, por meus abismos particulares
onde somente florescem
palavras.

Zingarah é advogada e escritora em São Paulo. Escreve na área jurídica e, sob o pseudônimo Zingarah, desenvolve diversas atividades literárias, incluindo seu blog pessoal. Participa da Revista Literária Paralelo 30 atua ainda como parecerista no mercado editorial.

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