Toc-toc
Mauro Paz
Toc-toc. Bate o bico da bota do uniforme de frentista no meio-fio deixando para trás mais um dia de trabalho. Uma vida ordinária que nem a cachaça gostaria de lembrar. Sozinho no mundo desde sempre, saiu de casa ainda menino. Não guarda fotografias, bilhetes ou algo que valha. A única lembrança dos seus vinte e cinco anos de vida é o reflexo no espelho que agora assiste ao passar em frente à vitrine da loja de sapatos.
Toc-toc. O bico da bota no primeiro degrau da escada do seu prédio tentando livrar-se dos insultos do gerente, da gorjeta humilhante e do cheiro misturado de suor e óleo que encharca seu macacão. Sobe as escadas. Toc-toc, toc-toc. A cada degrau uma parada. Respira. Enxuga a testa. Busca uma lembrança que conforte. Toc-toc. Não há nada.
Enfrenta o corredor. O prédio é velho. Lixo espalhado. Crianças brincam em meio ao lixo enquanto a mãe prepara o jantar com a porta do apartamento aberta. Som de televisão. Berros. Pára em frente à porta de seu cubículo. Pensa em descer para beber algo, um baseado talvez.
Abre a porta. O JK mede quatro por quatro. Roupas espalhadas. Panelas sujas. Poeira. Dormindo no colchão estendido sobre o carpete, sua companheira. Aproxima-se lentamente. Observa. Vai à cozinha. A térmica de café está vazia. Serve um copo d’água. Retorna à sala. Bebe lentamente sem tirar os olhos da adolescente. Repousa o copo sobre a televisão.
Toc-toc. Enfia a bota nas costelas da menina deitada. Sem saber o que está acontecendo, ela se vira. Toc-toc. Acerta a barriga. Ela tenta se levantar. Toc-toc. Golpeia o baço. Toc-toc, toc-toc. Os vizinhos não estranham os gritos. Toc-toc, toc-toc, toc-toc, toc-toc, toc-toc. Cai desacordada sobre a poça de sangue no colchão.
Ele troca de roupa, de calçados. Tranca o JK. Cumprimenta a vizinha esboçando um sorriso para as crianças. Toc-toc. Desce o primeiro degrau da escada a caminho da rua.
Mauro Paz é redator publicitário, escritor, formado em Letras, gremista, ex-projeto de piloto de avião, ex-músico, admirador de cinema, teatro, artes visuais e dias de sol não muito quente. Tem diversos contos publicados em sites e antologias. Desde 2005, mantém o blog Velho Pituca.




