Aborrecimento


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José Luís Bértolo

Estava chateado porque o professor ralhou consigo. Disse-lhe que não sei quê não sei quê não estava bom, ao que ele respondeu “tá bem” e saiu da sala. “Caiu-me mal, pá”, disse-me, e eu respondi “deixa lá amigo, pensa que na África subsariana, neste preciso momento, morrem crianças após meses de dolorosa subnutrição, ou que, noutros pontos do globo, rapazotes de 6 anos são obrigados a trabalhar e nunca mais porão os pés na escola; pensa no azar que eles têm por nunca poderem vir a ser vítimas de reprimendas de professores universitários. Pode ser que te ajude”. Imergiu no profundo silêncio por momentos; respondeu-me “eh, nem por isso”. “Então olha, faz assim”, disse-lhe “masturba-te e simultaneamente enterra dois dedos no cu, bem até lá ao fundo, e massaja a próstata com delicadeza”. Não tenho muito jeito para avaliar estas coisas mas parece-me que o seu sorriso foi nervoso. “Conseguiste ser muito porco, agora”, replicou, e eu discordei, firme, e relembrei a popularidade da masturbação anal por todo o mundo civilizado e não civilizado, e que o estímulo da próstata induz ao orgasmo, e que os músculos do ânus contraem durante o orgasmo e que com dois dedos lá dentro invadi-lo-á, decerto, uma sensação nova e inesquecível que o fará esquecer ao menos por uns momentos a sua tristemente irrepreensível vida de estudante universitário, e mais: que essa coisa do porco e não-porco é ideia feita, que não há pensamentos mais porcos ou impuros que outros, que têm todos a mesma natureza, que tudo brota da terra. E eu não sei o que é brotar da terra, mas estava apenas a tentar ajudar o meu amigo.

Desde o dia do seu nascimento, há cerca de vinte anos, José Luís Bértolo ainda não fez muita coisa que mereça ser destacada numa nota biográfica. Os pontos altos talvez tenham sido os meses de trabalho numa livraria, as três licenciaturas inacabadas, os poucos contos escritos, o blog que mantém, as contas que não tem para pagar, a ambição de um dia se tornar um bom cozinheiro.

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5 comentários  


  1. ah e o josé conhece a marta,e a marta considera o josé um rapaz porreiro.e isso devia estar incluido na nota biografica.
    gostei*

    marta - 17/05/08
  2. Mas a nota biográfica foi redigida por quem? Suspeito que pelo autor, não?

    Elisa Seixas - 18/05/08
  3. Elisa, todas as notas biográficas são feitas pelos próprios autores. :-)

    Renata Miloni - 18/05/08
  4. Bem me parecia confirmar o estilo. ;) Muito obrigada pela prona resposta.

    Elisa Seixas - 18/05/08
  5. errata: pronta

    Elisa Seixas - 18/05/08


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