O salto
Ygor Moretti Fiorante
No momento em que via aquele salto no alto da ponte… Durante o vôo daquele desconhecido, lembrou-se dum outro movimento em sua vida. Quando executava movimentos ásperos pressionando uma gilete sobre os pulsos.
Freou o carro bruscamente parando a 10 metros da ponte, tentou enxergar o desfecho da fúnebre acrobacia, mas só conseguiu ver a ponte, intacta, estática. Apoiou a cabeça no volante, tentou controlar a respiração ofegante que lhe inflava o peito, segurou com mais firmeza a direção tentando controlar a tremedeira das mãos. Torcia para que quando voltasse a dirigir os movimentos mecânicos e automáticos lhe devolvessem certa calma. Tinha pressa mas não conseguia ultrapassar os 40 quilômetros horários, queria o escuro de seu quarto, aquele canto da parede, o abraço sobre si mesma.
No escuro do quarto deu de cara com as marcas nos pulsos… entristeceu-se mais, envergonhou-se outra vez, e sentiu aquela dor psicológica enquanto deslizava o dedo nas cicatrizes. Tinha total lembrança daqueles dias lentos, e daquele sangue que lhe sujara a roupa e rapidamente se espalhava pelo banheiro. Fora um golpe mal feito e pouco profundo que apenas lhe feriu “permitindo” que continuasse acordada assistindo ao lento enfraquecimento do seu corpo e a gradativa mudança da cor de sua pele.
Assim foi revivendo aqueles dias… a temperatura seca, o silêncio mórbido. Na gaveta dezenas de cartas anunciavam o seu projeto de morte que ainda não ocorrera.
A relação morna com a minúscula família, a falta de aptidão pra qualquer tarefa e o recente fim do namoro foram os últimos lacres inseridos no rosto impedindo por completo um sorriso.
Nos próximos dias iniciou uma cerimônia de despedidas, no momento em que optara mais uma vez pela morte era alcançada por um fio de inveja, seguida da curiosidade de quem não verá a seqüências dos dias.
Não tinha lembrança de sua última conversa com a mãe, desde sua investida sobre os pulsos, despediu-se em silêncio dela enquanto passava frente aos porta-retratos da sala.
Naquela noite foi de ônibus, desceu dois pontos antes do local, durante a caminhada para seu desespero não se arrependeu, não voltou atrás, respirou fundo no para-peito da ponte… Era uma noite estranha de inverno, quente e úmida, insetos rodeavam as luzes dos postes, o vento erguia seus cabelos, eram cumpridos e lisos, alguns envelopes partiam de suas mão em vôo sob a ponte, abaixo o rio seguiu intacto, silencioso e inocente de possíveis mudanças em seu leito…
Ygor Moretti Fiorante nasceu em São Paulo em 1980. Trabalha como Designer Gráfico. Formou-se em Letras pela FAAC. Foi editor e fundador do fanzine O Sobrevivente durante três anos, e do Letras News enquanto esteve na faculdade. Editor do Guia de Artes Plásticas do Portal Sobre Sites durante três anos. Publicou dois contos na antologia Brainstorm (ed. Andross). Escreve em seu blog





Muito interessante. Já tinha lido alguns contos sobre suicídio, mas não sob essa perspectiva.
Gostei muito. Lembrou-me outros contos também. No começo fiquei com a impressão de que a narrativa “se passava” em SP, depois, no final, essa sensação desapareceu e o que ficou foi a idéia de uma história maior (de uma trama interior), que podia ter ocorrido em qualquer canto.
Parabéns Sr. Poeta!
Mais uma vez vc fez as letras parecerem um filme em minha cabeça…
Vc tem o dom de transformar as palavras em verdadeiros filmes imaginários!!!
Continue assim!!! Supreenda-me cada vez mais!!!
E mais uma vez parabéns!!!!