O menino dos lábios lilases


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Guto Melo

Um engraxate, que tinha os pés muito inchados, resolveu num dia de muita luz e flor virar palhaço. Entrou para o circo. Em vez de lustrar pisante alheio, tratou de polir a alma com invenções alegres e um nariz vermelho. De lugarejo em lugarejo, a lona era armada, tornava-se atração, mas em seu hálito, além da chama do riso, havia uma embriaguez de cachaça.

Quando os habitantes de um lugarejo qualquer sabiam da chegada do circo, passavam semanas preambulando, alongados em comentários sobre o homem que cuspia fogo, o atirador de facas, o domador de leões, a mulher de duas cabeças. No dia do espetáculo, geralmente único, colocavam suas roupas novas, compradas de véspera, empetecavam as crianças, que se lambuzavam de algodão doce. “Pai, por que o circo dura só um dia?” — perguntava um menino com cambitos de dez pras duas. O pai, sem resposta na língua, fingia não escutar e dava mais algodão doce para o filho.

Descontente com o silêncio, o menino aproveitou um vacilo do pai para escapulir em busca da resposta. Enfiou-se pelo meio da terra na direção de uma tenda improvisada, ali por trás da lona. Viu o palhaço, maquiado e vestido com um macacão bem colorido, engraxando seus próprios sapatos, sentado em um banquinho de madeira. O menino espiava, abobado e tímido.

— O que é isso que você bebe?

O palhaço soltou um leve sorriso. “É um líquido para esquentar o espírito”, a voz um tanto embargada.

O menino lambia os últimos fiapos de seu algodão doce, atento aos hábeis movimentos do palhaço, sapato e curiosidade num brilho intenso e elevado. O pano corria ligeiro sobre o couro, com breves pausas para mais um gole. O menino tinha os lábios lilases; o palhaço os olhos estourados de álcool.

— Por que o circo dura só um dia?

O palhaço, com um bafo insuportável, passou as costas das mãos no rosto do menino.

— O circo dura o tempo da sua lembrança. Pode não acabar nunca.

O menino pediu a cachaça. O palhaço colocou a língua para fora para que o menino o imitasse. Pingou umas três gotinhas e fez o gesto de engolir. O menino obedeceu. Seguiu o seu destino de volta, o espetáculo iria começar em poucos instantes. O pai reclamou o sumiço do filho com um beliscão no braço. O menino nem sentiu dor.

Guto Melo, 33, é jornalista e escritor. Recentemente, foi selecionado no I Concurso Nacional de Poesia da FATEC (SP) e deve integrar antologia a ser publicada este ano. Participa de outras antologias, tem textos publicados em revistas eletrônicas e mantém um blog.

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1 comentário  


  1. O circo dura o tempo da sua lembrança. Pode não acabar nunca.
    É isso aí…disse tudo, genial amei!
    Beijos doce!

    *Veri* - 06/04/08


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