O inseto
Emerson Wiskow
O ambiente todo era pouco iluminado. Apenas uma luz parda envolvia o lugar como se fosse coberto com leves pinceladas. Ao fundo, quase que despercebido, quieto como um fantasma solitário, o velho Herbet mastigava um pedaço de fumo. Sua mesa era salpicada com migalhas de biscoitos, papéis velhos e livros. O rolo de fumo repousava ao canto como uma serpente negra que aos poucos Herbert cortava-lhe pedaços para mastigar.
Numa tarde ensolarada, tão quente que não havia pássaro que catasse e tudo torrrava lá fora, o velho Herbert ouviu alguns ruídos vindo entre as apertadas prateleiras abarrotadas de livros. O velho parou de mastigar a bola de fumo e pegou um porrete que ficava próximo a ele. Herbert andou silenciosamente através das prateleiras e foi em direção aos ruídos.
— Ah, é você seu filho da mãe! — exclamou o velho.
Um gigantesco e repugnante inseto fuçava nos livros espalhados pelo chão do sebo. Herbert golpeou o inseto que parecia ser uma aberração da natureza. O animal saltou um grunhido de dor e tremeu as várias pernas freneticamente tentando defender-se. Herbert voltou a golpeá-lo, desta vez acertando-lhe a carapaça escura e peluda.
— Você nunca deveria ter vindo parar aqui. Nunca! — berrava o velho para a criatura.
O inseto monstro lançou-lhe um olhar de piedade.
— Ah, deus! Você é um monstro!
O inseto gigante encolheu-se até que Herbert parou de golpeá-lo. Lentamente o inseto arrastou-se para um pequeno querto que servia de depósito para o sebo. Ali ele vivia entre milhares de livros cheios de poeira, pilhas de papéis e sujeira.
Herbert ficou observando a criatura arrastar-se para dentro do depósito até sumir na penumbra do lugar.
O velho Herbert escarrou uma gosma viscosa e escura e voltou para trás da sua mesa. O inseto monstruoso envolvido pela escuridão, deixou algumas lágrimas fugirem e então adormecer enquanto pensava no amor e ódio que sentia por Herbert.
Dedicado à Franz Kafka
Emerson Wiskow escreve em seu blog e para o site Bagatelas. Não se considera escritor. Também desenha cartoons.





Gostei do conto, tem uma narrativa legal, imagens fortes. Só acho que sobra a dedicação a Kafka: ela já está bastante explícita no texto.