Do sangue
Carlos Eduardo Bonini
— Morte aos ricos!
E partiu a despedaçar cada uma das obras da praça. Uma música do demônio ou um filme de doentes, as pessoas se dispõem agora a acreditar que o menino adquiriu comportamento torto e carece de correção.
— Uma sova resolve.
— Tira o dinheiro, Ivete, quero ver ele botar banca depois disso.
— Dona Ivete, teu filho mijou no meu jardim anteontem, tive vontade de cortar o mal pela raiz mas deixei passar… foi respeito à senhora.
— Obrigado, Osvaldo. Vou falar com o menino, vocês sabem como é nessa idade… vontade de aparecer.
E Ivete pára de limpar o quarto do filho, quanto tempo?
— Moleque crescido sem pai tem dessas. Ele nem bebe, nem fuma, é um moleque bom. Teve a educação que eu pude dar, mas é esforçado.
Os picumãs se acumulando no quarto, a noite toda os brônquios saem para buscar algum ar. Logo uma doença, a cidade se esconde em orações pela mais fácil solução. A carne queimando, as ventas sempre ruborizadas.
— Bem esse teu filho podia ficar vermelho é de vergonha… agora deu pra bulir com as minhas filhas, trodia vi o moleque esticando a língua pra dentro da orelha da mais novinha.
— Eu tive que limpar o quarto, o menino sempre sofreu do pulmão e eu só tenho ele no mundo… Tão precioso, alma boa como a do pai.
Ela se retirou à casa; logo na sala, o calor das plantações queimando. Cada passo como uma enxada partindo e voltando para beijar a terra fofa, a mais sincera dúvida sobre a própria vontade. O melhor e o pior são possíveis, têm gosto, satisfazem.
No quarto, o penhoir e as calçolas da mãe se alojavam entre o forte compasso, pernas de menino que trabalha para ajudar em casa. Mãos úmidas e obedientes que divertem o dono — garoto nessa idade é muito curioso.
— Vem, mãe.
— …alma boa como a do pai
Carlos Eduardo Bonini, vinte e alguns. Escrevo há muitos, mas publico há poucos. Talvez leve ainda tantos para ter algo meu publicado em papel, mas me viro como posso. Influenciado pela terra vermelha, pelo transparente dos olhos e pelo cinza das intenções.





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