Deságua
Briza Mulatinho
Foi como na vez em que me queimei. Segurei a assadeira quente e fiquei com o cabo dela desenhado na mão. Por 30 ou 40 segundos não me mexi, pensando no que fazer pra aliviar a dor. Aí, ele apareceu e eu comecei a chorar, compulsivamente. Depois a rir, na mesma medida. Porque chegava a ser engraçado me saber infantil assim. E reconfortante sentir que ele não se afastava, nem me afastava, por causa disso. Quando eu era criança, tinha medo de dormir sozinha. Mas tinha que dormir sozinha, porque não tem bicho papão no armário. Pronto. E eu sentia um aperto tão grande no peito, cada vez que a tarde ia chegando ao fim. Era quase desespero. E o tempo todo essa obrigação de seguir em frente, porque é isso que se faz. De me virar sozinha, porque as pessoas são hostis. De não sentir tanta dor, porque a vida continua. E foi assim por tanto tempo que passou a ser verdade, mesmo que não fosse tão verdade assim. Não aqui dentro. E aqui dentro é tudo que eu tenho. Uma hora, essa dor guardada, deságua. E foi o que aconteceu esses dias. No exato momento em que ele chegou, entreguei os pontos. Não precisava ser forte, corajosa, nem fingir uma maturidade que não sei se algum dia vai chegar. Não precisava ser nada além de mim. Não precisava ter medo de ter medo. Podia, simplesmente, me deitar no colo dele e ficar ali, enquanto ele cuidava da minha mão queimada e mandava o bicho-papão pra longe, bem longe dali.
Briza Mulatinho nasceu e mora em Recife. Formada em Comunicação, trabalha com Publicidade. E gosta. Tem um blog, cabelos vermelhos e algumas sardas. Escreve porque não sabe desenhar.





Parábens pelo texto comovente mesmo ver alguém não poder mais controlar as emoções diante de tantas “convenções” sociais e bla bla bla, isso deveria acontecer mais com todos nós.
E gostei muito da sua descrição: “Escreve porque não sabe desenhar.” sempre eu sou desses também rssss
Gosto de crônicas e os minicontos, como o seu, proporcionam momento de prazer. Escrevo crônicas, ainda não tentei pequenas histórias. Quem sabe, no futuro.
Que lindo!
Tão simples e tão intenso ao mesmo tempo!
Me identifiquei nas sua narrativa, sou muito assim de deixar fluir as emoções.
Continue assim com essa sua leveza, consegue penetrar melhor no leitor ok!
Beijos doce!
e eu nem sabia que tava aqui. que alegria!
ô, meudeusbriza. tão bonitas tuas palavras. aiai
E depois das panelas quente, de dedos presos nas portas, de respirar água pelo nariz na piscina… a gente começa chorar pelo ‘quentume’ da paixão, pelo frio da ausência, pelo telefone que não tocou, pelo trabalho de merd… e passa metade da vida assim choramingando… mas tem final feliz nisso tudo, tem AQUELE colo que agora já não é mais o da mãe nem do pai, que por felicidade e salvação sempre há de pintar no quadro da nossa vida !…
quissu meu deus… que lindo mesmo!
beijos daqui…