Tatuagem interna
Márcia do Valle
Olhou seus lábios entreabertos e deu um beijo. Um monólogo em forma de beijo na boca que dormia. Pegou sua bolsa e foi embora sem fazer barulho. Não queria que ele acordasse e acabasse com o encantamento. Quebrasse a harmonia do dia como uma gota de molho shoyo na camisa branca. Clara preferia sonhar que ele nunca ligaria só porque ela não deixou o número do telefone. Preferia imaginar que, se ele acordasse, a pediria para ficar mais um pouco. Pediria mais um beijo, e mais um, e mais um… Com a mesma pressa e necessidade de quando estava embriagado. Queria continuar se sentindo amada, desejada. Queria motivo para ser feliz ao menos por um dia. Não agüentaria seu olhar de surpresa ao perceber que não acordara sozinho. Muito menos o desespero dele algum tempo depois, quando ele mandasse que examinassem seu sangue maldito. Quando ele descobrisse as conseqüências daquela noite e não lembrasse que foi ele mesmo quem insistiu para não usar camisinha. Clara preferia continuar sonhando que ele se deixou contaminar por amor. Um amor tão grande que tinha deixado marcas de sua passagem. Um amor tão grande que compensava o HIV para o resto da vida dele, a partir daquela noite.
Márcia do Valle tem 29 anos, é carioca e escritora. Escreve desde pequena e começou a divulgar seus textos em seu blog. A partir daí, suas palavras começaram a invadir o espaço virtual e, atualmente, podem ser encontradas em diversos sites. Seu primeiro livro, o romance 180 Graus (Editora Marco Zero), retrata a vida de duas personagens que podem ser encontradas em cada um dos leitores.





Fazia tempo que não lia Márcia do Valle e percebo estar afiado seu exercício literário.
Cadinho RoCo
Valeu Márcia, parabéns e um forte abraço.
Márcia, parabéns pela delicadeza como tratou um tema tão importante… Obrigada pelas suas palavras. Vc está cada vez melhor. Deveriam usar esse texto pleo Min da Saúde.
Cada vez que leio a Márcia me impressiono com seu texto, com a fluidez de suas idéias, com a criatividade e a volúpia com que ela escreve. Que continue assim, brilhante como sempre.
contudente..forte, um alerta em forma de arte pode funcionaraté mais q campanhas.
Parabéns, principalmente pela síntase , em poucas palavras tratou de um assunto polemico, necessario e vital.
Nossa, esse texto foi mesmo forte. Transar sem camisinha é roleta russa.
bjo amiga… tudo de bom, Lu
Márcinha, que delicia de literatura. Suavidade no asunto tão polêmico e interessantissima leitura.
Escreva mais, escreva mais…..
Sucesso pra vc!
marcia, os homens não imaginam do que é capaz uma mulher que se sente usada.
Forte, cruel e real. Como a vida. Parabéns.
Muito bom!
Beijos do *CC*
tema delicado percepção delicada = seu belo conto. Adorei.