Reflexo


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Fernanda Passos

Era ao reflexo que recorria quando precisava encontrar algo perdido em seu interior. O espelho servia de alter, a outra margem do lago estéril que se tornara. Encara. Não encontra nada além da secura que assola suas retinas.

Experimenta a sensação de ser um pedaço de chão semi-árido. Até a cisterna - depósito de sonhos - está vazia. Estiagem se estendendo além da conta. Desidratada, economiza lamentos.

Indiferença o que restava.

Muitas vezes, desatinou em busca desse gêmeo desgarrado — sua representação — que se recusava a aparecer, deixando estéreis seus momentos. O nada, ausência da presença contida no outro que era ela.

Agora — ao menos — descaso, insipidez na alma, fusão dos anseios tatuados na memória, breu a vedar as janelas do corpo. Impressões desaparecidas e um hiato que divide a si mesma.

Cega, por conta da profusão de desejos; surda, na superabundância de tristes ais; muda, frente ao alucinado grito que lhe furtara o tato da docilidade, o gosto da alegria e o cheiro da esperança.

Vastidão que brota na tessitura do mundo. Planaltos delirantes com picos a exibir, orgulhosamente, todo o sugar da vida. Sempre foi voluptuosa, enraizada na fome incessante do movimento. Arquiteta de idílios, moldava sua intimidade com maestria.

Hoje: insensibilidade. Correnteza desviante de todas as suas cobiças.

O banheiro, todo branco, contrasta com o carmim predominante em seus olhos ao relembrar quão prenhe de tudo já havia sido. Acabou por deslizar na íngreme trajetória de sua outra margem que seguia a linha horizonte, arrastando suas colinas e deixando uma planície de coisa alguma.

A indiferença não tem cumes. De tão ampla, só o vento passa por ela, sorvendo o querer e o sentir que encontra no caminho.

Num esforço colossal, resgata a voz e grita.

Ao menos poderia ouvir a concretude de seu eco na solidão do espelho que se tornou opaco.

Fernanda Passos mora em São Luís do Maranhão. É formada em Filosofia e Professora Universitária. Escreve poesias e prosas não por se sentir (nem para ser considerada) poeta ou escritora, mas para ter sensibilidade artística. Blogueira, publica no Poesia na Veia e no Prosa na Veia.

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4 comentários  


  1. Uma viagem pela geografia interior, em que não sabemos ao certo onde encontra-se a parada final.

    Jefferson Luiz - 22/11/07
  2. Muito bonito; muito sentimento e muito bonito. Você pode se sentir poeta e escritora.

    [ ]s

    Elton Pinheiro - 27/11/07
  3. Jefferson: A geografia interior é o espaço de auto-conhecimento. Você mostrou uma sensibilidade aguçada ao comentar meu conto dessa forma.

    Elton: Honrada pelo elogio.

    Por fim, quero deixar registrado o meu orgulho por fazer parte dessa edição da Malagueta e agradecer a toda equipe dessa revista de tão alta qualidade. Todos os textos são execelentes.

    Fernanda Passos - 29/11/07
  4. O modo como a Fernanda Passos alinhava suas poesias, seus ensaios e contos é de umas agulhadas, umas passadas de pontos, que lhe qualificam uma tecelã de palabras já perto dos arremates da manta, já nos punhos da rede. E o que se pode dizer desses artepensamentoscrivos é que são de uma beleza sem ingual. A banca dela é a mais festejada. Sem dúvidas.

    Um beijo Fernada Passos Ludovicense Vollf
    Naeno

    Naeno - 02/12/07


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