Nada e coisa alguma


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Ro Druhens

Esvaziou gavetas, rasgou cartas, destruiu lembranças. Arquivou mistérios. Afogou gemidos. Sufocou lágrimas. Algemou perdões. Desfez-se e se refez. Lembrou do vestido negro. Das sandálias altíssimas. Dos brincos que lhe faziam cócegas no pescoço. Do batom. Riscou os olhos com negros traços. Quantas mãos passaram por seu corpo. Quantas bocas promessas lhe fizeram. Quantas línguas sugaram seus orgasmos. Nada que preenchesse o vazio que era em torno dela, que era ela. Continente e conteúdo. Nada e coisa alguma. Passos trôpegos e madrugadas. Cambalhotas e piruetas. Tripas e coração. A história que esquecera secando no varal. A história que precisava ser passada a ferro. Desamassada. Engomada. Trancafiada, sem nódoas, no fundo do armário. Arrependimento e perdão. Quando fosse outono. Quem sabe. No redemoinho de folhas secas e o gosto doce de pêssego maduro. Mas era verão e suas tempestades. Cortou unhas e cabelos. Ensaiou gestos e esgares. Comeu ausência, vomitou saudade. Viu-se inseto. Sentiu-se réptil. Quis-se leoa. Revolveu a terra. Replantou um sonho. Provocou os anjos. Despertou os deuses. Exorcizou demônios. Dançou sobre os abismos. Mergulhou nos pântanos. Escalou as nuvens.

E, quando ele chegou, lhe abriu as pernas.

Ro Druhens. Nasci, um dia. Um dia, vou morrer. Entre isto e aquilo, tudo o que vier é lucro. Um prêmio: primeiro lugar no concurso Ferreira Gullar para poesia em língua portuguesa, promovido pela Editora Uapê, em 1999. Um livro: Alguns Contistas Contemporâneos (Editora Uapê-RJ). Vários heterônimos como se fosse “uma” Pessoa. Eu, uma pessoa que escreve a vida, tentando a vida reescrever.

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2 comentários  


  1. Muito bom mesmo. Muito legal explorar essa torrente de sentimentos. ^^

    Cássia Sousa - 16/11/07
  2. Li de uma vez, sem respirar…
    Intenso!

    Parabéns,

    beijos!!!

    Nathalia Duprat - 18/11/07


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