Assim
Zingarah
Noite de cores enviesadas, atiradas de qualquer jeito sobre um retalho de céu dormente. Vernizes de estanho que me recordam outras coisas, um sonho dentro de outro sonho, ou algo parecido. Não esperava encontrá-lo ao pé da escada, tão despido de vaidade e tão cru, assim quase brotado do chão, como só sabem fazer as pedras em sua verdade de minério límpido. Esperando. Aprecio o seu senso de oportunidade, pondero ligeiramente sobre a pausa que habita em seus olhos escuros. Meu mundo é feito de pausas e movimentos, é uma espécie de pauta em clave de Fá. A minha música anda procurando os caminhos da sua, ambas enveredadas por um rumo negro-azulado, tingido de noite escura. A sua hesitação é o reflexo da minha, e o ínfimo tremor no canto da sua boca diz mais do que você pode imaginar. Não me espere, assim infiltrado nas sombras que deslizam, porque mesmo a minha capacidade de desdenhar pode ser mortalmente atingida nessa zona cinzenta que despedaça o dia. Não queira ver além do véu, deixe-o assim desdobrado, apenas recobrindo o intenso fulgor que fere nossa escuridão.
Zingarah é advogada e escritora em São Paulo. Escreve na área jurídica e, sob o pseudônimo Zingarah, desenvolve diversas atividades literárias, incluindo seu blog pessoal. Participa da Revista Literária Paralelo 30 atua ainda como parecerista no mercado editorial.




