Raiva!


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Cássia Sousa

Estava em casa, deitado na cama. De bruços. Com o olhar um tanto vago, fixo na parede branca, perdido em pensamentos. Não qualquer tipo de pensamento. Detalhes minuciosos de cada lembrança miserável que um ser poderia possuir explodiam intensamente, sem parar um instante sequer, cada vez mais rápido, chegando a seguir mesmo um compasso. Eram como ondas cadenciadas… Evoluindo, chegando.

Suas feições mostravam uma serenidade sob a qual se ocultava uma torrente de emoções que explodiriam a qualquer momento. De repente, iniciou a ofegar. Cada vez com intervalos mais breves. Segurava uma caneta na mão. Uma caneta azul. Em outra situação poderia parecer uma caneta rija, forte, até mesmo poderosa, mas não!… Não naquela mão tão irritada, endemoninhada. Ela assemelhava-se agora a uma pequena vareta, flexível, indolente, frágil. Os dedos oscilavam entre o vermelho e o branco massacrando o utensílio. Rangeu os dentes, largou a caneta e levou as mãos à cabeça, enrolando os dedos no cabelo de maneira compulsória, para depois simplesmente friccioná-las no couro cabeludo. Ofegava. Fechou o punho e ergueu o mais distante que pôde da fronte para, em seguida, com toda a força que tinha, acertá-la uma, duas, três, quatro… Quantas vezes? Perdeu a conta. Colou o corpo na cama. Dessa vez, com o ventre voltado para cima e a cabeça, ligeiramente voltada para a direita. A testa estava um tanto avermelhada, mas isso ele não viu. A última coisa de que se lembrou foi da parede branca em sua frente tornar-se negra, à medida que seus olhos foram cerrando lentamente até lacrarem-se de vez. Encolheu-se na cama, sentindo um frio repentino. Adormecido.

Cássia Sousa nasceu em Santo Antônio de Lisboa-PI. Tem 20 anos e é estudante de Jornalismo e Artes, ambos pela UFPI de Teresina. Tem seu próprio blog que trata não só de literatura e colabora com mais dois: Cacos UFPI e Nepec.

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