Paleta
Carlos Eduardo Bonini
Encanta-me a terra vermelha, esta que entra estabanada pelo salão em dias sem festa — primeira dança dos ventos do verão. Banca memórias, as mais puras e as que apertam o peito, e impõe um lençol colorido sobre a cidade sem curvas e graça. Tomaram por sangue aquela vermelhidão que eu exibia quando vim, chorando impotente e me debatendo e arranhando o ar, mas tenho para mim que era só um tanto da lembrança do lugar que de fato me pariu.
Engana-me o transparente dos olhos, o menino tem medo mas parece tão convicto. A menina tem olhos, mas só enxergo a alça sobre o ombro pálido. O pálido não me encanta, tampouco me engana; apenas me absorve e me deixa ali bobo, menino sem medo mas nada convicto.
Deixo-me conduzir pelo indefinido nas intenções. Vez me ensinaram que em poesia não cabe hesitação, perguntei a cor da dúvida. Cara feia do mestre, hesitei. E assim por toda a vida, tons demais para escolher. Enxergaram-me todo rosado no leito de minha vinda, o manto leve da festejada espera. Disseram-me cinza quando cresci.
Carlos Eduardo Bonini, vinte e alguns. Escrevo há muitos, mas publico há poucos. Talvez leve ainda tantos para ter algo meu publicado em papel, mas me viro como posso. Influenciado pela terra vermelha, pelo transparente dos olhos e pelo cinza das intenções.




