Mortimer
Caio Marinho
Todo ano, Mortimer tentava acertar quando ia morrer. Escrevia a data num pedaço de papel, dobrava-o ao meio e colocava-o numa gaveta. Gostava de pensar que ainda tinha sempre o dia seguinte para viver, então nunca o escrevia no papel. Também a data escrita deveria estar contida naquele ano e, junto com o chute, deveria escrever o epitáfio que iria na lápide.
Não era hábito novo: há alguns anos já, e Mortimer repetia-se no ritual: acordava bem cedo e deixava o pão queimar. “Vou morrer mesmo.” Fazia questão de ser um dia de trabalho, e tanto melhor se fosse um feriado quando tivesse que trabalhar. Mas Mortimer nunca morria, e o único legado que ia deixando eram suas faltas no cartão-de-bater-ponto. Isso seria, não fossem seus epitáfios arrumados, cronologicamente, numa gaveta.
As coisas nunca me foram aquilo que, simplesmente, pareciam; Perdi-me na vastidão dos dias; Minha morte foi meu lenitivo: vários e muitos, amontoados e esquecidos até o dia em que Mortimer acertou a data e morreu de vez. Em seu último epitáfio, escreveu-se: “meus dias vão-se, e meu silêncio continua.”
Caio Marinho Ribeiro mora em Fortaleza, no Ceará, onde estuda Letras.




