D.F. - Uma fábula possível


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Gustavo Rios

Brasília pegava fogo. E, entre as chamas, algumas pessoas corriam desesperadas, na tentativa de salvar jóias, dólares e serviçais. Somente os melhores serviçais eram salvos. Os outros morriam queimados, pois que utilidade teriam se não sabiam cozinhar, passar ou lavar?

Quando o fogo finalmente cessou, cogitou-se uma rápida reconstrução. Como material tinham à disposição os ossos e os restos mortais dos pobres, nordestinos e operários mortos na catástrofe. Para conseguir mão-de-obra tiveram uma grande idéia: ao redor da cidade, construíram bordéis. E eram imensas cabanas improvisadas com paus e pedaços dos tecidos finos, remanescentes das roupas de gala estragadas na correria. As esposas e as lindas filhas dos ministros, senadores dos outros políticos influentes iriam satisfazer o desejo de todo aquele forasteiro que visitasse os cabarés.

A notícia se espalhou rápido. Todo dia, centenas de caminhões — verdadeiras romarias insanas — chegavam à Brasília de toda parte do país. Eram vários retirantes desesperados. Todos famintos e “sedentos”. Nos bordéis, eles fodiam as esposas dos políticos e suas filhas por noites inteiras, além de comer e beber fartamente. Depois de algum tempo, como pagamento pelos momentos de luxúria, trabalhavam na reconstrução dessa grandiosa cidade. Cavavam, levantavam paredes, reerguendo mansões, palacetes e plenários. Dia após dia, osso após osso, esses homens, agora escravizados, faziam ressurgir essa cidade que tanto orgulho traz ao país.

E assim, após alguns meses, Brasília estava novamente de pé.

Gustavo Rios nasceu em 1974. É baiano e reside em Salvador. Autor do livro de contos O amor é uma coisa feia, lançado em 2007 pela Coleção Rocinante, da Editora 7 Letras. Os minicontos acima fazem parte de um livro ainda inédito. Ele escreve regularmente nos blogs Cozinha do cão e O amor é uma coisa feia.

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