Soco no espelho
Dimas Gomez
Ela veio tremendo. A mão cortada de sangue, de caco de vidro, de espelho, de lâmpada. A dor era de sangue escorrendo, latejando, fraquejando as pernas bambeantes de choro dolorido. Ela não queria ligar pro hospital. Não era louca. Não era. Era tristeza, era raiva, era decepção. Era traição encardida de escarlate. Mas o espelho é que sofreu, a lâmpada que no susto estourou, como se fosse o copo de cristal de um grito surdo, que a luz preenchia. E o copo de luz apagou, e ela veio tremendo. Tremendo de susto do sangue despejado, despejante, dorente.
Ela entristeceu o corredor, a sala, com sangue no carpete de madeira tão querido e cuidado. E veio. E o ódio e a humilhação vieram juntos. O vinho veio também, já bebido e embebido, vermelho e lancinante, na garrafa agora também derramada, porque tropeçar no mogno da mesa de tampo de vidro era até redenção. Mas a redenção não veio. Tampo trincado, garrafa rolada, vinho vertendo pela boca. Bocarra. Assim esculpida a cena triste, ela sentou no sofá e desistiu de usar a mão-mais-forte pra melindrar toda aquela raiva. Numa nova tentativa de carinho ofertado, desistiu da destruição na carícia de pegar o telefone. A mão fraca, fracamente, discou.
Dimas Gomez (24) é escrivinhadô e contadô de causo. Místico estudante, procura as verdades simples e veladas. Paulistano de mãe mineira e pai uruguaio, gosta de um bom papo e de gentileza. De experiência e mito. Trabalha com o que há de subterrâneo na experiência humana. Escreve em seu blog.




