Gavetas vazias


A+  A-  C  F   P

Paulo Rodrigues Ferreira

De nada adianta procurares o teu homem nas gavetas com meias ou nos copos cheios de gordura: não o encontrarás. Repara que este «não encontrarás» não se aplica apenas ao dia de hoje ou de amanhã. Não voltarás a ver o teu marido. Tens noção do que isso quer dizer? Não voltar a pôr os olhos numa pessoa com a qual se costuma partilhar o tempo e o espaço. Não mais sentir a carne dentro da carne. Passar o resto dos tempos a contemplar fotografias. Tens noção do impacto que pode ter uma simples frase? Não voltarás a estar com o teu marido. Ele desapareceu. Esta é uma palavra errada. O teu marido não desapareceu. Morreu. Como explicar uma morte? Com uma faca. Lembras-te do momento em que ele te disse que ia passear o cão pelas ruas da cidade? Lembras-te? Certamente que sim. Cinco minutos depois de ter pegado o cão pela coleira e de se ter posto na rua, foi interpelado por um sujeito sujo, com cara de vilão, que o assaltou, que o esmurrou, que lhe espetou uma faca na barriga, que o fez esvair-se em sangue. Sabes receber um murro no nariz? Não deve ser como cantar ou ouvir música, deve ser bem mais doloroso. Conheces a sensação de levar uma facada no estômago? Sabes descrever o sabor do sangue na boca?  Não procures o teu homem nos cantos escuros da casa: ele não é um fantasma. Poderia ser, reconheça-se. Caminhava como se tivesse asas nos ombros. Os seus gritos eram murmúrios. Claro que te recordas de tudo isto. Eras uma boa esposa.

Paulo Rodrigues Ferreira nasceu a 15 de Agosto de 1984. É residente em Lisboa mas natural de Torres Vedras. Mestrando em História Contemporânea na Universidade de Lisboa. Participou na antologia de micro-narrativas Contos de Algibeira (2007). Colabora com as revistas online Minguante, Veredas e Recanto das Letras.

A+  A-  C  F   P   T




Comente





Antes de comentar, leia atentamente as regras de uso do site.

Fechar
Envie por e-mail