Doce e vermelho verão
Andreia Areias
O Verão começa hoje. Em miúda, sempre associou o Verão a um fruto grande e maduro, e vermelho. Suculento e luzidio. Que daria uma sensação de prazer quase orgásmica ao comê-lo. Óbvio que não pensou nestes termos, mas o pensamento era o mesmo. Saía de casa com a suas saias com bolinhas laranjas e vagueava pelas ruelas acima e abaixo na sua bicicleta rosa-choque. Os outros meninos também tinham bicicletas, e acompanhavam-na. Iam para o outro lado da vila, onde havia um pequeno lago e árvores verdes e frondosas, que davam uma sensação de frescura perante o calor agonizante de certas tardes de Verão. Cerejas, morangos, maçãs, peras, mirtilos, amoras, melancias, melões… Gostava de ir ao supermercado ver as frutas dispostas nas bancadas, e as várias pessoas a experimentarem-nas, a apertarem-nas, até elas libertarem a sua essência nutritiva. Parecia que apenas procuravam isso, sentir as frutas quase a desfazerem-se nas suas mãos ansiosas.
O Verão começa hoje. Que bom! Tinha que procurar as suas saias e montar na sua bicicleta para ir até ao lago, ou até ao supermercado com os seus amigos, a Rosita e o José.
“Vou sair. Antes de anoitecer estou em casa.”
“Onde vais?”
“Vou ter com a Rosita e o José, o Verão começou hoje!”
“Senhora Ana, estamos em pleno Inverno, e a Rosita e o José não estão aqui.”
Aproximou-se. E, com alguma força, ajudou a senhora Ana a voltar ao quarto, e pensou que teria que avisar o médico, pois a situação estava a piorar. Estava a chover a potes e, se não fosse ela, a senhora Ana teria saído para a rua nem se apercebendo do autêntico vendaval que se aproximava e pensando que era Verão.
Andreia Areias é portuguesa e vive nos Açores, terras de basalto e hortênsias. Nasceu no ano de 1990 e, neste momento, tem dezoito anos. Ainda precoce, é certo, mas tem em si uma motivação para escrever, ainda que não de forma adequada. Frequenta a escola e irá ingressar no ensino superior este ano. É aluna de Ciências, mas sempre se interessou pela literatura e pela escrita, pelo que lê regularmente e escreve há cerca de um ano, publicando esses escritos em seu blog.





Discordo da apreciação final, pois a escrita não tem forma,
e é um mundo sem parâmetros.
Já conhecia esta pequena descrição quotidiana do Blog,
e sempre me impressionou a sua clareza ao escrever.
Parabens à vossa Revista ao publicar gente nova.
jabeiteslp
Gostei muito deste conto. Muito bem escrito e com conteúdo como é habitual nela.
Estar presente nesta edição é algo natural tendo em conta a qualidade de escrita.
Continua a surpreender-me.
P.s. Não aos limites convencionais(!)