Riboflavin flavored
Bruno Cardoso
Por vezes sinto a necessidade de me demorar um pouco mais em questões absolutamente frívolas apenas pelo prazer de me demorar esse tantinho mais, de fazer parecer interessante o que não é de todo interessante — ou ainda, de fazer parecer que me interesso pelo que me é extremamente desinteressante tão somente pelo exercício do fingimento debochado. E eu freqüentemente me pego versando sobre compromissos inúteis e horas de sono e o tempo, o frio, a chuva — fenômenos naturais, em geral —, pois são esses os únicos assuntos que surgem espontaneamente em qualquer lugar onde hajam duas pessoas tomadas pelo tédio e/ou a necessidade de evitar o silêncio. (E eu gosto do silêncio, bem entendido, mas não posso sustentá-lo sozinho quando vêm me dizer que a temperatura irá cair à noite e logo em seguida, sem que eu possa esboçar qualquer expressão de enfado, questionam-me se irei passar frio por estar vestindo apenas a camiseta e não um traje de inverno novo e completo. Um sorriso desajeitado e evasivo responde a primeira parte, mas a segunda exige a fala, uma articulação qualquer de palavras de modo seco e rápido para tentar encerrar o princípio de diálogo ali mesmo, para cortar o mal pela raiz — e eu geralmente opto pelas respostas mais curtas: um “não” ou um “não sei”. Pois é realmente difícil saber.)
Mas acontece algo diferente quando o interlocutor manifesta uma atenção exagerada, provavelmente fingida, para qualquer que seja a resposta, como se aquilo fosse tudo o que ele tivesse para se agarrar: aí não tenho outra escolha senão lhe dar corda e passar a esmiuçar os pormenores até tangenciar — ou penetrar — a ficção, num esforço lírico e criativo de produzir um relato incomum, e deveras interessante, ou causar a impressão de que a chuva que irá cair logo mais me é vital ou me preocupa em demasia por causa de uma gama de fatores inventados on the fly no decorrer do meu monólogo, a começar por uma hipotética janela aberta que porá em risco a integridade física de móveis, cortinas, tapetes, livros e absolutamente tudo o que deve ser mantido longe de um punhado de moléculas de H2O. E tudo isso alça vôos ainda mais estratosféricos — quiçá jesusféricos — quando o ouvinte vai à réplica e discorre apaixonadamente sobre outras tantas leviandades, experiências pessoais, intuições supersticiosas e citações questionáveis até que, quando menos se espera, surgem os causos de outrem e toda fantasia/mitologia de terceiros se incorpora àquele instante de delírio raso e vagabundo, mas que faz os ponteiros do relógio girarem mais rápido (ou mais devagar, pois não há ficção que salve aquelas conversinhas sobre bebês, novelas ou doenças degenerativas).
E quando o outro vai embora e o sol finalmente se põe, após um suspiro de alívio e reconforto o frio vem e eu o sinto com mais incômodo do que imaginava que o sentiria, a camiseta é mesmo fina e sempre há um segundo sujeito, completamente diferente do primeiro, que surge da penumbra e indaga o mesmo e eu respondo o mesmo, pois ele não quer saber e eu não quero contar, e nem sempre as coisas descem até o nível de detalhamento insano no qual dá sentir na ponta da língua o ímpeto de discorrer sobre absurdos quaisquer para justificar o frio como, vá lá, um fator obsessivo-compulsivo de carência decorrente do afastamento da figura materna durante a formação de indivíduo em si que, agora, envolto pela malha industrializada, sente o ligeiro conforto sintético e a necessidade de auto-afirmação diante de uma simbólica força maior (o frio) como representação do seu descontentamento contra a sociedade explicitamente falocrata, capitalista e decadente.
É uma pena, no entanto, que a maioria prefira o diálogo de praxe, repleto de concordâncias vazias e sem graça nenhuma. É ainda mais triste que o prefiram ao silêncio. Daí acabo ficando quieto e tomo chuva sem ter dito nada irrelevante ou mesmo sem ter praguejado inutilmente sobre como é foda secar o jeans num varal improvisado no canto da cozinha. Ainda que eu evite a conversa e procure sustentar o silêncio sempre que possível, quando o destroem assim, por nada, impiedosamente, não vejo alternativa senão no contra-ataque mais quixotesco que eu possa desferir.
Bruno Cardoso é paulista e ocupa um espaço módico em solo curitibano por conta de compromissos universitários. Escreve irrelugarmente em seu blog.




