Duas palavras
Diego Viana
Passei a acreditar no poder das palavras quando duas delas estragaram minha vida. Seja qual for a matéria de que se constituem, quando trepam nos meus ombros, me apertam as costas e absorvem as forças. De tão poderosas que são, elas que nem sei quais seriam.
Pois ela nunca me disse. Vociferou que tudo que queria de mim eram duas palavras. Só duas. Depois engasgou com o soluço, me deu as costas e partiu. Quanto a mim, fiquei como estava. Imóvel, perplexo, com uma esfinge entre as mãos.
Duas palavras, ela queria. Se fossem três, eu mataria a charada no mesmo instante. Se fosse uma só, melhor ainda. O campo ficaria restrito. Mas duas? Muitas frases podem ser montadas com só duas palavras, e sei que nenhuma delas é a que ela quer ouvir. Se fosse, eu ficaria pasmo. Ela não é mulher de economizar palavras, se é que mulheres lacônicas existem.
É fácil pensar em centenas de frases banais para dizer a uma mulher que pede palavras. Funciona como uma transação entre duas partes: uma tolice pedida, uma tolice entregue. De um golpe, a paz. Só que ela não é mulher de banalidades. Melhor largar esse impulso, antes de iniciar um motim.
Também é verdade que ela não disse nada sobre frases. Duas palavras, ela quer, e podem não ter conexão. Que tal? Do jeito que foi sentenciado, chega a parecer que as tais palavras sejam símbolos dos meus sentimentos, nada mais. Imagens abstratas de algo que é muito concreto, mas ela não consegue enxergar sem o apoio dessas duas lentes, as duas palavras que ela exige sem recurso.
Talvez seja intencional. Ela descobriu o que quer, enfim! E tenta me pôr à prova. Ela busca um poeta, alguém que sente com as palavras e nos faz crer que aquilo vem do âmago. Mas esse não sou eu. Não sou eu que ela quer. Cada vez que invento de tornar em palavras uma agitação da alma, já sei de antemão que é mentira.
Mentira, não, me expressei mal. É uma traição involuntária. Tento escapar, caio na armadilha. É sempre assim. O discurso é meu inimigo. Não tenho vergonha de ser um antagonista das palavras. Com números, também não me dou, e jamais fui recriminado por isso. Espero nunca cruzar com uma mulher que só queira de mim dois algarismos.
Tentei implementar com ela o que deu certo comigo. Comunicar para um mundo exterior minha filosofia muda. Com ela, consegui me agarrar à minha própria verdade. Uma literatura que lê os gestos, os sobressaltos da pulsação, as rugas do rosto, os encontros de pele. Uma música que já é dança, sem chegar a se contorcer. Um poema corriqueiro e encarnado.
Há quem consiga, certo, mentir em tudo isso. Mas eu, não.
Minha idéia falhou, já vejo. Ela tinha outros planos, ela que quer um poeta. Talvez, em algum ponto do início, ela tenha dito algo a respeito. No meio de alguma declaração sussurrada ao pé do ouvido. Uma confissão de amor ao verbo, não a mim. Mas foi talvez quando estávamos enlaçados e eu acreditava, sem reservas, na pele macia e na calma da respiração.
Esqueci de acreditar nas palavras. Fossem quais fossem, era com elas que ela queria me dizer algo. Nesse instante, ela é que era poeta, como o poeta que ela queria. Reconheço que não dei atenção ao que ela sussurrava.
É minha barreira com as palavras. Ela dizia e eu não escutava. De meu lado, as palavras foram barreira entre ela e a verdade. E não entendi que, para ela, as palavras, sozinhas, eram a verdade. Hoje, a tempestade estiando, não sei dizer que verdade têm as palavras. Delas, só provei a tragédia e só conheço o poder.
Diego Viana é jornalista e economista. Está há um ano na Paris de carne dura e sangue quente, estudando a filosofia e a vida do Velho Continente. No mundo inverso da internet sem pátria, é Osrevni, e publica dois blogues: Para ler sem olhar e Cálculo renal.




