Sobre macacos imortais e literatura barata
Bruno Cardoso
Dizem que se colocarmos um primata imortal diante de uma máquina de escrever inquebrável e deixarmos que o animal bata aleatoriamente nas teclas, um dia, provavelmente num futuro bem distante, o letrado macaco terá escrito todas as obras de Shakespeare, todos os poemas de Rimbaud e todas as crônicas de Nelson Rodrigues.
A base de tal dedução vem da Teoria das Probabilidades que, resumidamente, nos diz que se há uma chance de que um evento ocorra, se ela não diminuir com o passar do tempo e se esperarmos o bastante, o evento ocorrerá.
Dito isso — e abstraindo um pouco a Teoria, senão eu perco a piada —, podemos supor que, antes de escrever Hamlet, nosso parente genético começará a confecção de seu vasto legado literário pressionando violentamente as teclas de metal num furor criativo, animalesco e frenético nunca antes visto no reino animal. Abusará inconscientemente da indestrutibilidade da máquina para canalizar todo o ódio primitivo e visceral que costumava enrijecer sua musculatura e deixá-lo curvado sobre o abdômen, de tal modo que produziria, nos primeiros momentos, as obras mais sinceras e passionais já escritas — embora ininteligíveis até mesmo para o autor.
Este seria o primeiro estágio, a ira. Depois disso macaco se acalmaria e suspiraria longamente, mas sem nunca deixar de martelar o teclado com seus dedos peludos.
Aceita, então, o seu destino inexorável e tenta encontrar, na gigantesca pilha de escritos, algum fragmento que o agrade, mas vê somente o desabafo de um primata amador.
Irrita-se e determina-se. Datilografa laudas e laudas movido pelo sentimento de auto-superação, de aprimoramento. Num estalo entende toda a Teoria — não a das probabilidades, mas a da evolução — e esboça um riso no canto da boca enrugada. Se soubesse escrever, digitaria “Darwin”. E depois um palavrão. E mais outro.
É bom que o leitor compreenda que, embora esta narrativa seja breve, para que tudo isso ocorra é preciso de um punhado de séculos, muita sorte e um macaco com veia literária. Senão será apenas uma eterna observação sádica da luta do animal imortal com a máquina indestrutível.
Voltando à vaca fria, o terceiro estágio de nosso macaco é o mais óbvio de todos. Após reconhecer sua mediocridade inicial, seu ódio descontrolado e sua má posição na linha evolutiva, o primata, certo da recente superação e de seu diferencial, se envereda pelo ramo da auto-ajuda. Pensa até em aconselhar os colegas de espécie. Quer contar como compreendeu Darwin e que, apesar dos humanos, os primatas são seres incríveis e cheios (por que não?) de energia positiva e alto-astral.
Talvez aqui, passados alguns milênios desde a primeira tecla pressionada, nosso escritor-macaco já tenha conseguido reproduzir, letra por letra, vírgula por vírgula, alguns títulos de Zibia Gasparetto e extensas passagens de Paulo Coelho. Sente facilidade com o tipo de narrativa, gosta de repetir palavras que julga importantes e uni-las com coisas quaisquer — não se importa com a forma ou o conteúdo, basta que seja fácil e feliz.
Entretanto, é provável que ocorra um fenômeno curioso e lamentável, que pode pôr em risco toda a Teoria das Probabilidades e o destino de nossa pobre cobaia: é possível que após datilografar um volume demasiadamente grande de literatura barata, o infante escritor sinta-se influenciado ou até mesmo viciado pelo estilo e não progrida mais. Os movimentos que aprendeu para digitar “sucesso”, “dinheiro” e “felicidade” podem se tornar uma tentação irresistível e o excesso dessas palavras, como sabemos, é capaz de rebaixar qualquer escrito à condição de panfleto, como todos os outros que ele vinha produzindo.
O macaco, mesmo diante do labor infindável, entraria numa repetição patética e ininterrupta e o experimento perderia a razão de ser. Não seria, no entanto, uma empreitada inútil: apesar do irrisório valor cultural, as obras do primata poderiam render uns bons trocados para as editoras que se interessassem por elas. Alguns humanos adoram essas coisas.
E mesmo que esta fase comercial fosse superada, o incansável escritor ainda precisaria de alguns milhões de anos, talvez, para conseguir reproduzir pelo menos uma página completa de Dostoiévsky ou Machado de Assis.
Bruno Cardoso é paulista e ocupa um espaço módico em solo curitibano por conta de compromissos universitários. Escreve irrelugarmente em seu blog.





Olhe não me surpreenderia se esse primata após alguns minutos batesse com a máquina de escrever na cabeça de “alguns” que dizem isso.
Parabéns adorei sua crônica. Essa teoria das probabilidades tem um destino certo morrer caduca podes crer!
Beijos doce!
Texto maravilhoso! Vou ficar aqui em frente ao monitor, digitando a esmo, e quem sabe, sai um livro..rsrs.
Caro Bruno,
Infelizmente, para nosso desprazer, há muitos hominídeos escrevendo e ganhando muito dinheiro com a literatura de consumo. Parece que esse é o objetivo. Devemos ter muita sabedoria para escolher nossas leituras, enquanto isso não acontece, vamos lendo o que pintar, porque ninguém é de ferro! É melhor do que não ler nada, mas o ideal mesmo seria ler somente livros de alto valor literário. Dirão : valor é relativo, o que não vale nada hoje, pode valer muito amanhã. Digo que a grande sacada é ter feeling para saber o que terá valor amanhã.
Então, é só uma questão de tempo?
Não, mas só os verdadeiramente valorosos resistem ao tempo. E isso os sábios tentam nos ensinar. Uma coisa é certa, leia caca, mas leia a caca que você escolheu. Não vá na dos outros, porque, meu amigo, a Academia Brasileira de Letras está cheia de caca culta,( a aliteração é proposital, só pra brincar um pouquinho com as palavras ou será que é indício de um um espancamento involuntário desse pobre teclado?).
Todos já sabem da importância da leitura, mas nem todos sabem o que ler. Aproveitando-se desse detalhe, o mercado editorial lança milhares de publicações. Nesse mar de livros é muito fácil se afogar. De repente, a gente tem sorte e encontra uma reedição-tábua-de-salvação de um clássico, mas só se for de um clássico com mais de 50 anos, assim não precisam pagar direito autoral. Lembre-se o objetivo é ganhar dinheiro e não disperdiçá-lo. Então, você acaba encontrando na banca de jornal títulos interessantíssimos e importantíssimos, do mais alto galardão como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis, mas que, por estar na banca de jornal, os acometidos de imbecilidade crônica ou símios metidos a escriba, acham que não vale nada e correm para a livraria do shopping center comprar Gaspareto, edição de luxo, capa dura, papel couchê, gramatura 120,etc, pensando que estão comprando literatura da melhor qualidade.
Fica a lição: precisamos ter paciência para ler e sabedoria para distinguir o que é Literatura (com L maiúsculo) da literatura de consumo.
Saudações literárias!