Dissecação
Marco A. Domingues
Li, certa vez, que para que se escrever era preciso, primeiro, conhecer profundamente a natureza humana, entretanto, que natureza seria esta? Onde ela está, como posso entendê-la?
Infelizmente não faço a mínima idéia. Conheci centenas de pessoas, morei com mais de meia centena delas e, posso dizer, que apenas fiquei mais confuso quanto a essa tal natureza humana.
Percebo, no entanto, que ocorrem certos padrões, pessoas se repetem, pedaços de pessoas se repetem. Vejo partes de mim em outros e partes de pessoas há muito esquecidas em outras que acabei de conhecer. Mas tudo isso, é claro, pode ser efeito de minha imaginação. Como muitas pessoas, eu sempre procurei pelas tais coisas em comum, pelas analogias, mesmo que tivesse que inventá-las, criá-las, fantasiá-las. Quantos amigos de faz-de-conta não criei, quantos romances, namoros, viagens &c não tive apenas em minha cabeça, apenas tentando ver as possibilidades que as pessoas aparentemente ofereciam. Quase sempre estava errado, quase sempre era tudo fruto de minha mente, mas não me diverti menos vivendo dentro de minha cabeça; no fim, não vivemos sempre dentro de nossa cabeça?
Cada um carrega dentro de si, quer queira quer não, uma imagem própria do universo que se confunde com o que seria o universo real e exterior a nós, e as pessoas dentro deste nosso universo imaginário são só uma representação fragmentada das pessoas que aparentemente existem lá fora. Julgamos as pessoas em função destes fragmentos.
Então, você poderia dizer, como saber algo sobre a natureza de outra pessoa? Imagino que a resposta seja: Não há como saber, só nos resta vivermos interagindo com nossas imagens mentais. Mas não podemos nos esquecer de que o ser humano é imprevisível, cada um de nós é um sistema complexo que, sem razão aparente, pode começar a funcionar de maneira inesperada, cada um carrega uma imagem diferente do universo, ora em expansão, ora em retração, tentando englobar o mundo exterior da melhor forma possível e formar um sistema coerente.
O que seria então, entender a alma humana? Saber brincar melhor com as partes deste nosso mundo mental? Montar quebra-cabeças aceitáveis e verossímeis que podem ser reproduzidos em universos alheios? Se isto for verdade, então atingimos a loucura quando nossas construções já não fazem mais sentido, já que não podem mais ser reconstruídas e analisadas fora de nós, dentro de outras imaginações. Neste ponto, ficamos aprisionados em nós mesmos, deixamos de tentar montar uma imagem nossa, montamos apenas algo aproximado, caótico e que pode facilmente ser deixado de lado, como tem sido feito, ao longo dos séculos, com aqueles que não mais são compreendidos.
Marco A. Domingues mora atualmente em Campinas. Passou quase uma década tentando entender a produção humana através do que chamou de livre discência, estudando Química, Física, Matemática, Filosofia, Lingüística e Letras, se formando no último. É principalmente um leitor, mas se arrisca na ficção de vez em quando. Mantém um blog.





Discussão das boas essa, Marco. Boa e antiga (e isso não é demérito). O bom velhinho já dizia que a consciência nada mais é do que a realidade invertida, a realidade falseada…
Concordo com tudo que diz. Ajudou dar clareza em alguns pensamentos meus. Tem uma psicologia bem realista. E se escreve ficção é com certeza por saber que a natureza humana é impossível de se conhecer totalmente.
Beijos doce!
Sim, costumava escrever, não anda mais sobrando tempo, responsabilidades da vida, cansei de passar fome, é isso, está na hora de conseguir o mínimo de estabilidade, mas não é desculpa. A natureza humana, para mim é como um fractal, e cada pedaço, em cada faceta está o todo, e assim, desta forma, talvez possamos ter uma intuição do todo, acho que é a única via, nunca pelo caminho do racional…