Crise ficcionológica
João Barreto
A mentira profissionalizada que alimenta boa parte do mercado mundial de entretenimento pode entrar em colapso. Essa é a verdadeira crise dos EUA. Aquela coisa de crise do crédito é bobagem. A crise econômica tem sua origem legítima é na falta de estabilidade que o setor ficcionológico inspira.
É das mais feias a queda de braço entre estúdios e roteiristas estadunidenses em greve desde novembro último. Os primeiros fazem o jogo do patrão mau que demitirá sem dó ou clemência; os segundos se mantêm irredutíveis e duvidando da substituição imediata de milhares de ficcionadores. Esse impasse resulta em piadas ruins, cancelamentos de temporadas e reprises tediosas. Mas a conseqüência mais drástica que vimos é o zirigudum econômico detonado pelos roteiristas a serviço dos órgãos governamentais, que também resolveram cruzar os braços. Como ficção exige cuidados meticulosos, inda mais quando se trata de ficção oficial de Estado, a ausência de profissionais capacitados e talentosos fez ruir o enredo da solidez. Não demorou muito e soube-se a verdade sobre as finanças do vizinho do norte. (Na seqüência, alguém também tratou de disponibilizar a lista de mentiras elaboradas para Bush justificar a invasão do alheio.) E rumores sobre uma suposta paralisação dos ghost writers, que se consideram “primos” dos roteiristas, estão enervando diversas lideranças e celebridades.
O recado dos roteiristas é claro: não ficcionarão mais pelos valores de antes. Porém, ao que parece, não é somente a questão salarial que os move. O orgulho, esse fanfarrão, também é combustível. Tradicionalmente, esses ficcionadores já andam acabrunhados, pois são os autênticos fazedores de cama que não levam a fama. Quem conhece os roteiristas dos filmes do Spielberg? E o criador do Forest Gump? Quem é o autor de A Clockwork Orange? Aliás, quantos no Reino do Senso Comum sabem da existência desse tipo de profissional? A greve está sendo um botar de cartas na mesa. E ela é apenas a parte pública e claramente visível de um confronto que se dá efetivamente nos bastidores. Estão em jogo os rumos do grande celeiro mundial da ficção audiovisual. Desacreditar o sistema econômico foi um reflexo indireto e não planejado pelos grevistas. O poder deles de gerar caos é capaz de produzir conturbações seriamente mais graves que as conhecidas por hora. Milhares de autores desgostosos vagando por aí sem rotina e ocupação fixa podem ser capazes de muita coisa… A quantidade de contos do vigário circulando na praça só tende a aumentar, por exemplo.
E toda essa agitação nos meios ficcionais gera angustiante clima de tensão entre os manda-chuvas. Se o país não é capaz de garantir uma produção estável de histórias, do que ele é capaz então? Terá condições de manter a liderança, o poder e a hegemonia sem oferecer nada além de realidade pura e crua? Porque o concretamente real e palpável, por si só, não basta. Necessita-se de adaptações, sempre. Se essa paralisação contamina outras categorias também responsáveis por afazeres ficcionológicos, tudo se tornará mais imprevisível e o temor no mercado crescerá exponencialmente. Imagine o pânico na bolsa se os maus historiadores e maus jornalistas, que são muitos, resolverem imitar os colegas produtores da ficção de entretenimento! Porque uma pátria não é uma nação sem ter quem romanceie sua história e seus acontecimentos — o que seria de nosso orgulho nacional sem o mito que apresenta Tiradentes como um grandessíssimo herói? O que seria da Europa sem o mito de que Jesus Cristo era branco, de cabelos lisos e olhos claros, tal como um bom europeu? O que seria do Ingsoc sem a demonização dos eurasianos?
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No futuro, sábios bem eruditos dirão que minha análise das coisas está fajuta, inverossímil e canalha. Pois saibam, sabidos, que terei em mãos inquestionáveis provas históricas e historicistas sobre como as coisas se deram. No futuro poderei afirmar, serenamente e confiante, que a crise da ficcionologia estadunidense foi o prenúncio, o estopim, a causa detonantis da crise da economia real. A ordem dos acontecimentos e as datas — ah!, as datas — comprovarão por todo o sempre que foi em Hollywood, justamente onde se construiu a idealização do life style norte-americano, que a crise começou. Acadêmicos assimilarão, com dez anos de atraso, o ensinamento desse episódio: a ficção é o verdadeiro motor da história.
João Barreto é jovem, é confuso e é de Porto Alegre. Às vezes é inconstante — mas nem sempre. Mantém um blog chamado Vejo tudo e não morro. Com doze anos assistiu Sociedade dos Poetas Mortos e ficou maravilhado. Hoje já não acha mais grande coisa.





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Caro amigo que vê tudo e não morre, acredite: acredito na sua teoria. Um ponto de vista excepcional, com o perdão do provável exagero de pontos de exclamação!!!!! Uma grande potência, nação, não poderia sobreviver sem suas mentiras bem boladas. Ainda bem (pra eles) que eles ainda têm jornalistas e publicitários… mas talvez seja uma questão de tempo.
Imagine só, quando isso acontecer… os jornais todos mal escritos e sem investigação nenhuma, enchendo linguiça com porcarias que qualquer criança sabe e perdendo toda sua credibilidade e confiança. A publicidade perde toda sua criatividade e inventividade, batendo sempre na mesma tecla gasta que já não engana ninguém, e… … hmmm …peraí, pô!